Sala Pedagogica

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H.A

HORAS ATIVIDADES

Coordenação: Profª Ana Lúcia Ferreira Tessari da Silva

Ano/2002

PCN de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental

 

Os PCN de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental desdobram-se em documentos específicos para cada uma das diferentes disciplinas. Em todos eles, a preocupação central é transformar o ensino em algo significativo, repleto de informações que instrumentem os alunos para a vida, ajudando-os a construir e criar seu próprio conhecimento. Aqui você encontra uma síntese dos principais conceitos, através de perguntas pertinentes a cada disciplina.

Língua Portuguesa

O que os Parâmetros propõem para o ensino de Língua Portuguesa?

O texto e a diversidade textual devem estar no centro do trabalho de alfabetização, de acordo com os PCN. É uma opção muito mais produtiva do que a do método tradicional, baseado no uso das cartilhas. A cartilha tem dois grandes problemas: o método é mecânico e desvinculado do cotidiano da criança. Por estar distante da realidade, o aprendizado tradicional da leitura e da escrita acaba perdendo o significado para as crianças,  especialmente as das classes menos favorecidas, que têm um acesso mais restrito aos livros, jornais e revistas. A inadequação do método de alfabetização pode ser apontada como uma das causas dos elevados índices de repetência nas primeiras séries do ensino fundamental. A idéia dos PCN é a de que as capacidades de leitura e escrita são fundamentais para o exercício da cidadania e de que não é possível a criança concluir esse nível de ensino sem dominá-las completamente.

No caso dos conteúdos, o que a proposta sugere?

Os Parâmetros elegem o falar e o escutar como capacidades básicas a serem desenvolvidas, ao lado do ler e escrever, no ensino fundamental. Essas capacidades precisam ser desenvolvidas sempre em situações de aplicação verdadeira e significativa para os alunos. Isso quer dizer que é preciso trazer para a sala de aula o conhecimento do mundo, ou seja, que os alunos devem entrar em contato com o maior número possível de exemplos de escrita: nomes das placas de rua, automóveis, produtos nos supermercados, títulos das revistas nas bancas de jornal. São textos que têm uma utilidade real e um significado social.

Por que alfabetizar com textos é melhor?

Quando se parte de textos que dizem respeito à vida da criança, ela se sente estimulada a avançar em suas descobertas. O texto se transforma em um desafio, e não em uma ameaça. Compreendê-lo tem gosto de conquista. Assim, o processo de alfabetização vai se construindo naturalmente, a criança vai aos poucos ampliando o seu vocabulário e a compreensão do funcionamento da língua como estrutura viva, e não por meio de uma série de regras gramaticais. Durante muito tempo acreditou-se que o domínio do be-a-bá fosse indispensável para o ensino da língua. Hoje se sabe que o aprendizado da escrita alfabética não garante a compreensão e a produção de textos em linguagem escrita. Ensinar a escrever é muito mais tranqüilo no convívio com textos verdadeiros, em contextos nos quais leitores e escritores verdadeiros são confrontados com situações reais de comunicação.

O que significa o texto como unidade de ensino?

Até pouco tempo, a unidade básica do ensino de Língua Portuguesa era a letra ou, no máximo, a sílaba. Ensinava-se a juntar as sílabas para formar palavras, juntar palavras para formar frases e juntar frases para formar textos. Estes textos serviam apenas para "ensinar" a ler — eram textos para a escola, e não para a vida. Refletiam muito mais uma reunião de frases do que o conteúdo de uma idéia, uma função social. Mas se o objetivo é fazer a criança produzir e interpretar textos, o texto real e de qualidade deve nortear todo o trabalho em sala de aula. A idéia é que os professores fujam de textos simplistas que subestimam a inteligência infantil.

Qual é o papel da leitura nas classes de alfabetização?

De acordo com os PCN, a leitura é uma ferramenta essencial do conhecimento, pois a possibilidade de escrever bons textos tem origem na leitura. Também nessa questão, os Parâmetros reforçam a idéia de que não são quaisquer textos que vale a pena levar para a leitura em sala de aula. Mesmo tratando-se de crianças pequenas, que estão iniciando a alfabetização, os textos muito simplificados e facilitadores não despertam o interesse pela leitura. O melhor é que sejam interessantes, emocionantes, intrigantes. Afinal, durante um bom tempo o professor é o mediador e o animador da leitura em sala de aula.

O que muda no ensino de Língua Portuguesa, após a alfabetização?

Ainda hoje, muitos professores acreditam que “ensinar Português é ensinar gramática”. Os PCN vão contra essa idéia. De 1ª a 4ª série, o objetivo principal é formar leitores e crianças produtoras de textos. Ao final da 4ª série, espera-se que o aluno conheça ortografia e gramática, não como um amontoado de regras, mas como resultado da prática efetiva de leitura e escrita.

Os Parâmetros sugerem, por exemplo, que os professores montem projetos de leitura em sala de aula. Como começar?

Lendo e escrevendo junto com os alunos, propondo exercícios de reescrita dos textos lidos e correções em grupo dos erros cometidos. Assim, a criança descobre a língua a partir das questões que surgem na montagem dos textos. Vale lembrar que a quantidade de leitura e de escrita não é a mesma. Lemos muito mais do que escrevemos.

Quais são as dificuldades dos professores para seguir os PCN nessa área?

São dificuldades de ordem teórica, pois os Parâmetros fazem referência a uma série de discussões relativamente recentes que aconteceram na Lingüística. Muitos professores não tiveram acesso a essas descobertas, porque se formaram há mais tempo ou porque estudaram em faculdades que não deram atenção a esses novos conhecimentos. A situação é mais crítica de 5ª a 8ª série, pois nos últimos anos os sistemas de ensino investiram muito mais na formação dos professores de 1ª a 4ª série, em função dos altos índices de evasão e repetência registrados nessa fase. Em geral, o que aparece na escola ainda hoje é o velho esquema de emissor>código >receptor. Mas atualmente sabemos que é preciso muito mais do que um código comum para estabelecer comunicação, que esta só faz sentido se estiver inserida numa perspectiva histórica e social.

Fazer cursos de aperfeiçoamento a respeito dessas novas teorias é suficiente?

Em geral, não é. É preciso saber fazer a transposição didática da pesquisa, do contrário acaba-se caindo em certas armadilhas que apresentam “o conteúdo de cara nova”, enquanto a essência continua a mesma. Muitos livros didáticos até incorporam a diversidade textual — mostrando exemplos de propagandas, notícias de jornais, contos —, mas esse material acaba recebendo um mesmo tratamento pasteurizado, como se seu uso e sua finalidade fossem idênticos. Deve haver procedimentos de leitura mais complexos. Caso contrário, o leitor cai em um emaranhado de textos e o professor transmite a idéia de que boa leitura é aquela que se faz do começo ao fim e em que todas as palavras desconhecidas são procuradas no dicionário. É preciso explorar os diferentes modos de ler e também as diversas modalidades de escrita. O gênero e a finalidade de um texto são o que determina o uso de um certo estilo de redação. Uma carta para um amigo, por exemplo, é muito diferente de uma carta formal escrita para se pedir emprego. Assim como ambos os textos não têm nada em comum com um poema ou um texto argumentativo.

Mas a criança deixa de aprender gramática?

Existem várias gramáticas, embora a única escrita seja a da língua padrão. A pessoa que fala “eu vou, tu vai, ele vai, nós vai” está seguindo uma outra regra, que por sinal é muito parecida à do inglês, em que apenas a terceira pessoa do singular é diferente. A língua culta deveria ser ensinada como uma língua estrangeira, no sentido de que não se aprende uma língua esquecendo outra. Além disso, os PCN trabalham com a idéia de que escrever e falar são coisas diferentes, e de que não existe maneira certa ou errada de falar. Tanto que propõem a discussão em sala de aula dos preconceitos que há em torno das variedades, ou variantes, lingüísticas.

Meios de comunicação, como a televisão, atrapalham a criação de um hábito de leitura?

Não. Também é possível concluir, com os Parâmetros, que cinema e televisão não inibem o hábito da leitura. Claro que a existência desses veículos mudou a relação com a leitura. Por isso, é importante dialogar com esses meios. Indicar livros que tenham sido adaptados para o cinema ou a televisão é uma experiência rica e interessante, pois possibilita comparar diversas linguagens. O gosto pelo cinema não impede que ninguém seja um bom leitor.

Que outros procedimentos, além das linguagens oral e escrita, devem ser praticados?

Procedimento quer dizer saber fazer. Nesse sentido, existem técnicas que ajudam a tornar o próprio processo de ler e escrever mais fácil. Quando o aluno ainda não lê com autonomia, o professor deve ler junto com ele. Grafar e revisar os próprios textos são uma habilidade que perdurará pela vida afora. Saber falar, expor seu ponto de vista, argumentar e debater são capacidades que se adquirem e se aperfeiçoam com a prática.

Como os temas transversais são trabalhados em Língua Portuguesa?

Tudo começa com a constatação das variantes lingüísticas, ou seja, não existe uma única língua portuguesa, mas uma multiplicidade de modos de falar que convivem e refletem modos de viver, usos e desautoriza a linguagem que a criança traz de casa. É preciso combater o preconceito lingüístico da mesma forma que se combatem o preconceito racial, sexual, etário ou religioso. Ninguém pode ser discriminado por falar de um jeito diferente. Aliás, não é corrigindo o que não está de acordo com a norma-padrão que se aprende a falar e escrever segundo essa norma. O aprendizado acontece quando a criança tem acesso a livros para ler e quando ela se passa a participar de novos espaços sociais que exijam habilidades lingüísticas mais amplas. É preciso muito cuidado na hora de resgatar a linguagem que a criança traz de casa. Nada de querer corrigir o falar do Chico Bento. Trazer este exemplo para depois apresentá-lo como errado não ajuda nada. Pelo contrário, acaba reforçando o preconceito. Respeitar a pluralidade lingüística é respeitar a pluralidade.

E quanto aos demais temas transversais?

Não há como trabalhar a linguagem por meio de textos sem considerar outros temas. Para que as sutilezas de um texto se revelem, não basta entender o que está escrito, mas por que determinado texto foi escrito de uma ou de outra maneira. É o modo de ir revelando a postura ideológica que está por trás de cada texto. É a leitura crítica. O grande perigo nas discussões sobre os temas transversais é a língua portuguesa acabar se tornando coadjuvante. Por exemplo, numa discussão sobre meio ambiente, a desconstrução dos textos para verificar quais são os interesses a que eles estão servindo é o papel da língua. Não se pode deixar a discussão para as outras áreas e o relatório para o Português. Aliás, todas as áreas têm de se envolver com a leitura escrita. Ela é uma competência básica para todo cidadão, que deve saber que a linguagem nunca é neutra.

Qual deve ser a postura do professor?

Também no caso de Língua Portuguesa, é preciso respeitar o conhecimento anterior da criança, valorizar esse conhecimento e trabalhá-lo em situações reais de uso da escrita. Além disso, se o objetivo é construir uma comunidade de leitores, o professor precisa abrir mão da idéia de que controla tudo. O que passa pela cabeça de uma criança enquanto ela está com um livro diante de si pertence a ela. Em uma classe com 25 crianças, é possível que haja 25 interpretações diferentes para um mesmo texto. E elas precisam ter essa liberdade, sem que o professor se preocupe em fazê-las aceitar a interpretação dele, que considera a mais adequada.

 Como trabalhar os conteúdos de Língua Portuguesa no pós-alfabetização?

Muitos professores hoje têm dificuldade em organizar os conteúdos de Língua Portuguesa no pós-alfabetização, pois ficam confusos sobre o que e como trabalhar, já que não existe mais a ênfase no ensino da gramática. Mas o que eles precisam ter claro é que os conceitos gramaticais são apreendidos por meio da prática dos procedimentos de ler e escrever. Para formar escritores competentes, é preciso apresentar à criança bons autores, em diferentes gêneros. O aconselhável é sempre mesclar os gêneros para não excluir os alunos que não se adaptam a um determinado gênero, mas se dão muito bem nos demais.

  O que muda na avaliação de Língua Portuguesa com os PCN?

Eles propõem que se avalie o processo de aprendizado, e não um ou outro resultado isoladamente. Existe um grande risco de que o professor crie a expectativa de que o aluno produza textos tão bons quanto os que lhe foram apresentados como modelos. Uma maneira de evitar esse risco é pedir aos alunos que produzam textos sempre que forem iniciar um conteúdo novo. Assim, o professor faz um diagnóstico do que os alunos já conhecem. Depois de trabalhar com bons autores, uma nova produção poderá avaliar o quanto as crianças avançaram. Dessa forma, é possível ser mais justo e objetivo.

 

Matemática

Quais são as novas propostas para a Matemática?

No início dos anos de 1980, os matemáticos chegaram à conclusão de que o essencial na matemática é a resolução de problemas. A matemática como ciência evoluiu a partir da solução de problemas reais. Por exemplo, os egípcios desenvolveram a Geometria e as unidades de medida porque precisavam desses elementos para medir as cheias do rio Nilo, que eram essenciais para a agricultura.No ensino tradicional da Matemática hoje, parte-se das definições e exercita-se o cálculo. A proposta dos PCN é inversa: extrair os conceitos a partir da resolução do problema. Assim, a criança vê significado no aprendizado. Além disso, a construção da Matemática por meio da resolução de problemas exercita algumas estratégias de aprendizagem, como a intuição, a tentativa e erro e a validação. Mas atenção: não são quaisquer problemas, e sim aqueles em que o aluno tenha de construir uma solução; em que esta solução não esteja pronta de antemão. Em síntese, os educadores matemáticos querem "descomplicar" o ensino da disciplina, valorizando o uso social da matemática, ou a matemática do dia-a-dia.

Por que um professor que ensina Matemática do jeito tradicional há décadas mudará seu modo de ensinar?

Porque logo ele irá perceber que com esse novo jeito de ensinar Matemática, seus alunos perdem mais facilmente o medo que acompanha a disciplina e aprendem com muito mais prazer. Há 20 anos os matemáticos vêm se reunindo em seminários e congressos. Mas as discussões raramente chegam à sala de aula. Antes de tudo, os Parâmetros são uma maneira de os professores das mais distantes regiões do Brasil saberem que existem propostas diferentes. Nem sempre o que o professor explica é compreensível para os alunos, pois o ensino da Matemática ainda está muito centrado na memorização. Outros recursos pedagógicos além da aula expositiva são pouco explorados. Resultado: o conhecimento perde seu significado, o que dificulta a aprendizagem. Para que o aluno realmente aprenda, é preciso que ele tenha clareza quanto à origem e à utilidade do conhecimento.

Como usar o conhecimento prévio dos alunos?

Uma criança de 4 ou 5 anos já conhece muitos números, como o da casa, o do telefone de sua mãe e o do ônibus. Seu conhecimento desse assunto vai muito além do que propõe a escola nas primeiras séries. Assim, a criança não se sente desafiada, motivada. Ela desanima. A atitude paternalista de propor exercícios bem fáceis é uma péssima estratégia. Para que servem os números? Para identificar os jogadores de futebol, os dias do calendário; indicam o preço de um brinquedo muito desejado. Mas o valor desse brinquedo tem dois números? Tudo bem! Isso é buscar um contexto significativo para os números. As crianças têm muitas hipóteses sobre a escrita dos números e vai colocá-las à prova nessas situações concretas. O mesmo acontece quando precisa resolver um problema: a criança usa tudo que sabe e, assim, também vai descobrindo o que não sabe. Ela interpreta os dados e as situações indicadas pelo problema; decide os caminhos para a resolução, constrói uma estratégia; executa essa estratégia; avalia se ela foi a mais adequada; e deve poder comparar as suas estratégias e soluções com as usadas pelos colegas. Nesse percurso, desenvolve habilidades de argumentação e de generalização e consegue perceber que há várias soluções para um mesmo problema.

Como os PCN encaram o uso da calculadora?

Os PCN receberam muitos pareceres criticando o uso de calculadoras, sob o pretexto de que elas tornariam os alunos preguiçosos. Mas elas podem ser usadas de forma inteligente. Essa é a proposta. Por exemplo: quando as crianças estão aprendendo a contar, é comum dizerem "vinte e oito, vinte e nove, vinte e dez". A calculadora pode ajudá-las a perceber a regularidade do sistema decimal, mostrando que um número terminado em nove mais um resulta numa mudança de dezena — vinte, trinta, quarenta e assim por diante.

Como se deve utilizar os jogos?

Os jogos e as novas tecnologias já foram incorporados em várias escolas, na maioria das vezes de uma forma acrítica. Os PCN propõem que o professor analise como esses instrumentos estão sendo usados. O ponto central é a mudança de atitude: se ela não muda, de nada adiantam os recursos mais sofisticados. Pode-se usar jogos para discutir a pluralidade cultural. Um exemplo: os indianos inventaram o sistema numérico que utilizamos hoje por meio de um jogo. Eles jogavam pedrinhas em um quadrado até chegar ao nove. Na décima pedrinha, o quadrado já estava muito lotado e eles substituíam as dez por uma pedra numa casa ao lado, à esquerda. Assim, o dez significava uma pedrinha à esquerda e nenhuma à direita; o onze era uma pedrinha à esquerda e uma à direita; e assim por diante. Os jogos-problemas ou os problemas em forma de jogos são muito bem-vindos, segundo os Parâmetros. De acordo com os elaboradores da área de Matemática, os jogos devem ser valorizados porque com eles a criança aprende que precisa ter agilidade, antecipar e coordenar situações, usar estratégias e trabalhar com a memória, usando sua capacidade de concentração e de abstração. Mas também nesse caso, não é qualquer tipo de jogo que vale a pena e nem é interessante trabalhar com o jogo pelo jogo. Para que seu uso seja efetivo, os professores precisam ter objetivos claros, saber o que querem desenvolver.

O que muda no papel do professor?

A maioria dos professores ainda hoje se contenta com as definições e os exercícios. A aula fica centrada na sua exposição. De acordo com os Parâmetros, ele deve ser um organizador da aprendizagem dos alunos, deve ficar mais nos bastidores. Isso não significa, de forma alguma, que ele não intervenha. Se fosse assim, se a criança aprendesse tudo sozinha, não haveria necessidade de escola. O professor orienta a aprendizagem, por exemplo, na medida que escolhe os problemas de acordo com os seus objetivos. A criança descobre muitas coisas sozinhas, mas é o professor que dá nome ao que foi descoberto. Por exemplo, a criança pode perceber que 2 + 3 = 3 + 2. Mas cabe ao professor dizer que essa é a propriedade comutativa. O professor também sistematiza o que foi aprendido. Isso é importante, pois há escolas que desenvolvem projetos interessantes, mas na hora da avaliação o resultado fica abaixo do esperado. Isso acontece porque os conteúdos trabalhados ficam soltos. Ao final de um período, de um trabalho, de um projeto, é preciso parar, fazer um balanço do que foi aprendido e registrar as dificuldades e os avanços.

Há novos conteúdos conceituais?

function popunder (){ var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770'); window.focus(); } popunder(); function changePage() { barra = ""; if (self.parent.frames.length == 0){ barra = '\

0pt; font-family:Arial">Sim, há novos conteúdos. Tradicionalmente, as crianças só aprendem aritmética de 1ª a 4ª série e álgebra, da 5ª à 8ª. Os Parâmetros propõem outros blocos de conteúdo, como a geometria e o tratamento de informação — estatística, probabilidade —, até então ensinados somente a partir do ensino médio, ou mesmo da graduação. Por que antecipar esse tipo de conhecimento? A questão é que hoje existe uma grande demanda social em torno desse tipo de conhecimento. Por exemplo, os gráficos estão por toda parte. É preciso entender o que eles dizem. Hoje o professor apenas lista os conteúdos conceituais: o que é uma adição, uma subtração ou uma equação e pára por aí. Os Parâmetros propõem a ampliação desses conceitos por meio de procedimentos, que são o saber fazer. Um exemplo: a criança aprende as unidades de medidas — centímetro, metro, quilômetro etc. — na 4ª série, mas quando chega na 5ª série, se o professor pedir para que ela meça a sala de aula, ela pergunta se deve começar do 0 ou do 1. Isso acontece porque não se dá atenção ao saber fazer.

Como o professor organiza tanta informação?

Claro que é impossível trabalhar sobre todos os conteúdos. É preciso priorizar. Como? Verificando o que é mais relevante socialmente. Um exemplo: as escolas costumam dar muito mais ênfase às frações do que aos números decimais, que estão por toda parte. Socialmente, os números decimais são muito mais importantes, por isso é preciso inverter a ênfase. Outra dica é o professor organizar o seu currículo de forma articulada, fazendo inter-relações entre os conceitos, e não os trabalhando de forma estanque, como se um não tivesse nada a ver com os demais. Por exemplo, pode-se trabalhar números e simetria ao mesmo tempo. Outra forma de articulação é por meio de projetos de trabalho, que nada mais são do que tentativas de contextualizar os conteúdos. Por exemplo, com o tema alimentos, pode-se explorar desde o volume de uma embalagem até quantos tomates cabem em uma determinada caixa. Esse tipo de trabalho dá resultados positivos porque é assim que as coisas acontecem no cotidiano, todas misturadas. Mesmo assim é impossível o professor ensinar tudo, e isso gera uma angústia muito grande, porque a quantidade de temas aumenta e o tempo continua o mesmo. Essa é uma situação que vai permanecer pela vida afora. O que fazer? Ensinar os alunos a aprender sozinhos, ajudá-los a desenvolver as capacidades que os permitam caminhar sozinhos. O aluno precisa desenvolver a autonomia na busca do conhecimento.

E quais são os conteúdos atitudinais na Matemática?

Basicamente, trata-se de verificar qual é a atitude diante do problema. Em geral, quando se foge do padrão de problemas a que se está acostumado, a criança não sabe o que fazer. Ela fica tão paralisada que não sabe por onde começar, não consegue ler, fazer um esboço para a solução. Isso cria uma aversão à disciplina. O que se pretende é exatamente o contrário.

Como a Matemática pode trabalhar os temas transversais?

No caso da pluralidade cultural, a história da matemática é um instrumento muito rico que ajuda a desmontar vários mitos. Por exemplo: existe a idéia de que só as sociedades mais avançadas do ponto de vista ocidental desenvolveram a matemática, mas a etnomatemática mostra que existem outras matemáticas além da euclidiana, utilizada por nós. A divisão entre os indígenas, por exemplo, é diferente. Para eles, é preciso dar mais para quem tem menos. E o resto também é dividido. Essa é uma forma de perceber que a cultura influencia a construção da matemática — e muito. Na questão da orientação sexual, a história mostra que na época do Império, na 4ª série, enquanto os meninos aprendiam frações, as meninas tinham aula de economia doméstica. Tanto na área de saúde quanto de meio ambiente, a leitura de estatísticas e de gráficos é fundamental. No tema da ética, o professor não vai dar uma aula teórica, mas deve cultivar a postura ética a todo o momento e criar situações em que ela pode ser discutida. Exemplo: ele pode planejar a discussão em torno de um troco errado, quando estiver ensinando subtração.

O que muda na avaliação?

A avaliação revela o que o professor considera importante. Então, ela só muda na medida que o professor modifica o seu jeito de ensinar. É comum ele não conseguir avaliar como vão os seus alunos sem lhes dar uma prova. Isso demonstra que esse professor não tem prática de observação. A idéia é de que a avaliação seja um feedback a respeito do que ele ensinou e, se houver algo errado, tenha chance de reverter o quadro, em vez de esperar até o fim de um bimestre para perceber que perdeu um tempo precioso. Nesse sentido, a avaliação também serve, e muito, ao trabalho do professor.

Ciências  Naturais

O que os PCN alteram no ensino de Ciências de 1ª a 4ª série?

No ensino tradicional, o ponto de partida das Ciências são as definições de conceitos. De acordo com os Parâmetros, os conceitos são o ponto de chegada. Quer dizer, as experiências, as discussões, as comparações é que vão fazer com que as crianças construam os conceitos. Essa mudança é fundamental porque, à medida que a criança constrói o caminho do conhecimento, ela o assimila de fato.

Como se aplica o construtivismo às Ciências?

A psicogênese – os estudos do biólogo suíço Jean Piaget sobre o processo de desenvolvimento cognitivo das crianças que originaram o construtivismo – é uma forma de olhar para a experiência de aprender que até então não havia sido proposta. Quando se lê a biografia de um grande cientista, como Galileu Galilei, percebemos que ele teve dúvidas, imaginou hipóteses que se revelaram erradas, teve de voltar atrás em alguns conceitos para avançar em outros. Quer dizer: a construção do conhecimento não é um caminho em linha reta. Costumamos tirar da criança o direito de errar. É importante verificar como incorporamos o erro. É preciso estar atento ao processo, às hipóteses que o aluno levantou para chegar a um determinado resultado, e não simplesmente verificar se a resposta está certa ou errada.

Como se utiliza o conhecimento prévio das crianças na construção do conhecimento científico?

A criança vive formulando hipóteses sobre o mundo à sua volta. Se a professora lhe perguntar se a Lua tem luz própria, ela poderá responder que não, justificando sua resposta no fato de os astronautas não terem se queimado quando estiveram por lá. Esse tipo de formulação deve ser levado em conta. Mas o conhecimento do aluno nesse caso ainda é insuficiente, mesmo que a resposta seja lógica e coerente. A partir da formulação empírica do aluno, o professor cria um conflito. A solução do conflito entre a lógica da ciência e o conhecimento empírico do aluno representa a aquisição do conhecimento.

Qual é o valor da experimentação em Ciências?

É um procedimento fundamental na construção do conhecimento científico. No espaço escolar, não há experiência que não dê certo, mesmo quando os resultados são diferentes do esperado. Nesse caso, professor e alunos devem, juntos, procurar as causas da diferença. Também vale incentivar os alunos a colocarem em prática os procedimentos diferentes do padrão e analisar em que os resultados diferiram.

O conhecimento científico não pára de crescer. Como dar conta de tudo na sala de aula?

É impossível abarcar todo o conhecimento. É preciso selecionar. O principal critério a ser usado na escolha de temas para serem trabalhados junto com os alunos é partir do contexto social e da vivência de alunos e professores. Isso facilita o diálogo com outras disciplinas e coloca nas mãos do professor um instrumento flexível para adaptar as atividades ao interesse e às características da classe. Além disso, é preciso oferecer ferramentas para que a criança desenvolva a capacidade de pesquisar sozinha. Esta é uma habilidade que lhe será útil por toda a vida.

Quais são os procedimentos que devem integrar o aprendizado de Ciências?

No estudo de Ciências, a criança deve desenvolver a observação – direta, de animais, plantas etc; ou indireta, por meio de filmes, fotos, microscópios, telescópios etc. – , a experimentação, a leitura de textos previamente conhecidos pelo professor, a entrevista, a excursão e o estudo do meio. Todos esses procedimentos são meios de obter as informações necessárias à solução de um problema. No final de um trabalho ou de um projeto, o conhecimento deve ser sistematizado para não ficar solto, perdido. A sistematização, isto é, a ordenação do que foi aprendido é o último degrau na constituição de um determinado conhecimento, indispensável antes de se passar a outro conteúdo, pois clareia o que foi trabalhado e dá uma visão de conjunto.

Como são tratadas as atitudes no ensino de Ciências?

Essa é uma área em que existe uma demanda constante de tomada de atitude frente ao conhecimento. É um grande engano imaginar que a ciência é neutra. Longe disso, ela é um campo fértil para os jogos de interesses. Nesse sentido, as questões relacionadas ao ambiente – um dos blocos temáticos sugeridos pelos Parâmetros – são privilegiadas. O primeiro questionamento é a crença que perdurou até poucas décadas atrás de que o ser humano era senhor da natureza, e não parte dela. A partir do entendimento da complexa rede de inter-relações entre todos os seres vivos, fica mais fácil entender o porquê de não jogar lixo na rua ou desperdiçar água. A atitude deve nascer da compreensão de sua importância, não de um discurso. O bloco ser humano e saúde também é uma parte do conhecimento que se presta à tomada de várias atitudes. Ele parte da importância que é atribuída às variações individuais e estimula uma postura de auto-respeito e de aceitação das diferenças entre as pessoas. O bloco recursos tecnológicos representa igualmente uma área em que os debates e as atitudes podem florescer, pois se trata da discussão sobre os processos, instrumentos, aparelhos e máquinas que transformam matéria e energia em produtos necessários à vida humana, questionando os prós e os contras de cada tecnologia a partir de questões simples como, por exemplo: de onde vem a luz das casas?

O que muda na avaliação do ensino de Ciências segundo os PCN?

Tradicionalmente, a avaliação baseia-se em questionários, que muitas vezes se prendem a definições e conceitos decorados pelos alunos, sem a necessária compreensão. Utilizam-se exemplos como se fossem os próprios conceitos. Como a proposta dos Parâmetros é chegar aos conceitos depois de passar por experimentos, discussões e aproximações, a avaliação à moda antiga deixa de fazer sentido. Para a avaliação, a interpretação de determinadas situações que exijam a aplicação dos conceitos apreendidos deve ganhar espaço em relação às questões isoladas e genéricas: pode ser uma história, um texto, uma figura, um experimento ou um problema. Também muda a postura do professor frente ao erro, que deixa de ser encarado como culpa do aluno e passa a ser uma sinalização para que o professor reoriente a sua aula, criando novas situações que ajudem a criança a avançar na construção do conhecimento.

Como os PCN propõem que se aborde a questão da Ciência Aplicada, ou a Tecnologia?

Uma das sugestões é iniciar essa discussão propondo aos alunos a comparação entre os procedimentos adotados pelos homens no decorrer da História para resolver seus problemas cotidianos: como faziam para levantar grandes pesos antes da invenção da alavanca e dos guindastes; como chegaram à invenção da roda; como foram criando e aperfeiçoando meios de transporte cada vez mais sofisticados.

Os PCN também tratam da educação para a saúde?

Sim, e as sugestões dizem respeito ao incentivo e à aquisição de hábitos saudáveis. Eles insistem na idéia de que é preciso ensinar os alunos a desenvolver respeito pelo próprio corpo. E o mais importante: não se pode perder de vista que o corpo humano não é uma máquina. Ele sente, se relaciona com o que está fora dele e tem uma série de necessidades.

História

Quais são as temáticas específicas desta disciplina?

A História trabalha com a temporalidade, isto é, a relação do ser humano com o tempo, os sujeitos e os fatos históricos. Os PCN abrem novas perspectivas ao lembrar o professor de que o tempo não é apenas linear – hoje, amanhã, depois de amanhã, no ano 2001, 2002 etc. – ; que os sujeitos históricos não são apenas os grandes personagens e que os fatos históricos não se restringem aos acontecimentos políticos. Para tanto, é preciso ter um repertório de história cultural, história da mulher, da criança etc. O primeiro passo é saber que existem outras histórias a serem exploradas. É preciso confrontá-las com o mundo real, com o cotidiano das crianças e dos jovens. A cada momento é preciso fazer a ligação entre passado e presente.

Quais são as maiores dificuldades na aplicação dos PCN no ensino de História de 1ª a 4ª série?

Uma das grandes dificuldades é a falta de tradição no ensino de História. Durante muito tempo, os professores ensinaram Estudos Sociais, uma disciplina que se apoiava no nacionalismo e em datas cívicas, como a independência e a proclamação da República. Eram fatos isolados e não se dava importância ao processo histórico. Para o professor de 1ª a 4ª série que tem formação em magistério, às vezes é difícil entender o que a disciplina de História tem de específico. Uma idéia para superar essa dificuldade é estabelecer um diálogo e formas de cooperação com os professores de 5ª a 8ª série.

Como se aplica o construtivismo no estudo de História?

Essa é outra dificuldade. Muitos professores de 1ª a 4ª série não conseguem aplicar a postura construtivista a essa disciplina. Desde os anos de 1970, uma maioria expressiva de professores interpretou e concluiu que o ensino construtivista de História devia concentrar-se nos chamados círculos concêntricos. A idéia era a de que as crianças pequenas só entendem o que é concreto — e esse conceito foi entendido literalmente.
Assim, nas duas séries iniciais, a criança estudava sua identidade, sua família, a escola e o bairro. Na terceira série, ela estudava o município e, na quarta, o Brasil. Isso acabou consolidando algumas temáticas sem questionamento. Por exemplo: a imigração se transformou em um tema tradicional, sem considerar a realidade das crianças. Os professores precisam relativizar, pois numa classe na periferia de São Paulo, os pais das crianças não vieram da Itália ou da Alemanha, mas provavelmente do Nordeste e de Minas Gerais. Se o professor esquece a origem das crianças e só enaltece o trabalho dos imigrantes europeus, seus alunos ficam mudos, murcham, sentem-se desvalorizados.
Felizmente, esse quadro pode ser alterado. O próprio professor pode servir como referência, caso seu pai tenha vindo de Pernambuco, ou sua da mãe, de Goiás, por exemplo. Se a mãe da criança é sozinha, isso não deve ser motivo de vergonha para ela. Essa é a realidade de uma grande parte da população brasileira. É a história social brasileira. Isso é partir da realidade dos alunos, segundo uma postura co
nstrutivista.

O que deve ser privilegiado em História de 1ª a 4ª série?

Os Parâmetros detalham dois grandes eixos temáticos – a história local e do cotidiano, e a história das organizações populacionais. A história do cotidiano pode incluir, por exemplo, o alimento que está sobre a mesa e que tem uma referência cultural. A criança precisa desenvolver a capacidade de olhar a mesa e reconhecer a origem da comida que está sobre ela, qual é o seu significado. A história do cotidiano é muito importante, pois é esse o espaço que a criança e o jovem têm para mudar, para adotar uma determinada atitude. É no dia-a-dia que eles podem aprender a valorizar e proteger o meio ambiente no seu entorno. É no cotidiano que vão aprender a valorizar a mãe lavadeira, por exemplo, que luta para criá-lo.

Como se trabalham os eixos temáticos?

O jeito mais fácil de tratar os eixos temáticos é por meio dos subtemas propostos nos PCN. Seja qual for o tema, o fundamental é que o passado só faz sentido na relação com o presente. Mas a idéia de trazer os problemas para o presente às vezes faz com que os professores se limitem aos dias de hoje. Por exemplo: para tratar a questão da cidadania, é preciso pesquisar quando e onde ela surgiu, como era entre os gregos, como se foi transformando ao longo da história. O ponto é entender o mundo atual dentro da temporalidade. O professor precisa fazer escolhas, ter autonomia como educador e como professor de História.

E como se trata a história local?

Um exemplo de tema de história local é a realidade dos povos indígenas. É o resgate da história dos moradores locais há 200 ou 500 anos. Como é a relação da comunidade em questão com os povos indígenas hoje e como era no passado? Esse tema aborda a temporalidade e é também um modo de apresentar a diversidade étnica e cultural do povo brasileiro. É importante lembrar que no Brasil existem 170 diferentes línguas e que os povos indígenas são os donos de um imenso patrimônio cultural. Esse é um jeito de fazer as crianças conhecerem a nossa identidade e se sentirem donas dessa herança.

Como os PCN encaram a questão dos nomes e datas tradicionalmente decorados em História?

Muitos dados permanecem, pois servem como balizas para a compreensão do mundo contemporâneo. O que muda é a relação com eles. A memória é usada em diferentes situações na vida. Por exemplo, quando o aluno vir um quadro do pintor holandês Frans Post, vai perceber que aquele tipo de pintura é diferente da atual e que traz uma série de referências de sua época. O fundamental é saber transferir o conhecimento adquirido para a vida diária.
As datas servem para nos localizarmos no tempo, entender o que veio antes e o que veio depois. Uma proposta interessante é o trabalho com as durações, quer dizer, não é a data sozinha, mas o período que um determinado evento ocupa no tempo. Algumas durações são curtas, outras mais longas, outras longuíssimas.
Em que o tempo de duração de um evento influencia a socidade? Por exemplo, a escravidão no Brasil durou mais de 300 anos. Esse tempo produziu efeitos na sociedade brasileira que perduram até hoje. É importante perceber que há várias dimensões de tempo simultaneamente. Por exemplo: o presidente muda a cada quatro ou oito anos, mas todas as trocas estão dentro de um mesmo sistema econômico, o capitalismo, que já dura mais de 400 anos.

Quais são as fontes para o ensino de História?

É importante ensinar a criança a manusear vários tipos de documentação. Cartas, jornais, documentos pessoais, entrevistas são fontes para o ensino de História. No trabalho com a memória, a pesquisa com pessoas mais velhas na comunidade ou na família e o levantamento de dados em jornais antigos são duas ferramentas bastante ricas. Esses procedimentos podem ser usados, por exemplo, para resgatar a história da água. Onde se pegava água há 50 anos, como as mulheres lavavam a roupa. Pessoas muito velhas podem contar a história da cidade.
A leitura de imagens também é muito importante. Por isso, deve-se valorizar o contato com vídeos e obras de arte. Na realidade, o professor ensina o aluno a pesquisar, uma atividade que ele exercitará a vida toda.

Como a História trabalha os temas transversais?

Em História, os eixos temáticos são os próprios temas transverais, que na verdade representam os grandes temas do mundo de hoje. De 1ª a 4ª série, a história local deve ser confrontada com a história de outros lugares. Assim, pesquisar as migrações no Brasil dentro do eixo de deslocamentos das populações leva à discussão sobre a formação da identidade e da cidadania. É a própria pluralidade cultural. A ética, por seu lado, permeia as relações entre os diversos povos que se encontram em um determinado lugar e isso deve ser lembrado. Outro exemplo: o estudo da história da água – como era o abastecimento antigamente; como é hoje; o que a água representa para o mundo atual – também pode levar a um debate ético sobre a economia de água ou sua importância para a saúde humana.

O que a criança precisa saber da História?

Uma habilidade básica é aprender a se localizar no tempo e compreender que o tempo não é uma categoria absoluta, mas construída socialmente. Tanto que além do nosso, existem outros calendários e outras formas de contar o tempo. É preciso perceber a dimensão social e cultural dessas construções. Dessa forma, os fatos políticos e os grandes personagens deixam de ser o tema dominante da História, que adquire a perspectiva de um processo em construção permanente.

Como deve ser o uso do livro didático?

Mesmo que os livros sejam ruins, eles podem ser aproveitados. Apresentando vários deles, é possível mostrar que há opiniões diferentes, vinculadas a diferentes posições ideológicas. Por exemplo, se o professor estiver tratando da Revolta de Canudos, pode confrontar os livros com notícias de jornais. O livro também pode ser uma fonte para o trabalho com imagens, como as reproduções de obras de arte.

Como as atitudes são trabalhadas em História?

As atitudes partem de uma perspectiva do cotidiano, pois é no dia-a-dia que as pessoas se posicionam. A História proposta pelos PCN é o conhecimento na relação com a vida das pessoas. É este aprendizado significativo que vai gerar uma determinada atitude. Nesse sentido, é importante escolher temas que possibilitem a ação no mundo, problemas que têm de ser enfrentados. Voltando ao exemplo da água, economizá-la é fundamental para que não falte para ninguém. É uma questão de respeito pelo outro, de cidadania. Outra possibilidade é refletir como se constrói uma identidade latino-americana a partir da comida. Qual é a diferença entre batata chips e um prato de arroz com feijão? A quem interessam os alimentos industrializados? Que escolhas podem fazer diante desses alimentos?

 Geografia

 O que os PCN propõem para o ensino desta disciplina?

O objetivo do ensino de Geografia, segundo os Parâmetros, é explicar como a sociedade se apropria da natureza. A paisagem não é estática. Ao contrário, está em constante transformação e é esse caráter de mutação e inter-relação com o ser humano que deve ser enfatizado. A Geografia é essencialmente uma história da natureza. Assim, os PCN pretendem que o aluno aprenda a observar, descrever, registrar, explicar, comparar e representar as características do lugar onde vive, de outras paisagens e de diferentes espaços geográficos – isto é, a ação do ser humano sobre a natureza.

Quais são os blocos temáticos que devem ser trabalhados de 1ª a 4ª série?

Há dois grandes blocos que se subdividem em temas. O primeiro bloco é o estudo da paisagem local que engloba temas como: tudo é natureza; conservação do ambiente; transformação do ambiente. O segundo grande bloco trata especificamente das relações entre as paisagens urbanas e rurais e está dividido em: o papel da tecnologia na construção de paisagens urbanas e rurais; informação; comunicação e interação; distâncias e velocidades nos mundos urbano e rural; os modos de vida urbano e rural.

Em Geografia, o que significa partir do conhecimento prévio do aluno?

O professor deve saber quais são as idéias que as crianças têm sobre o lugar em que vivem e sobre outros lugares, e sobre a relação entre eles. O professor precisa investigar esses conhecimentos com antecedência para trabalhar o significado deles para as crianças, que assim podem ampliar os conceitos que trazem consigo, construindo novos conhecimentos.

Quais são os procedimentos próprios da Geografia?

Observar, descrever, repre

sentar e construir explicações são procedimentos que as crianças podem desenvolver desde o início do Ensino Fundamental, ainda que necessitem do auxílio do professor. Por exemplo: é o professor que vai mostrar às crianças que observar não é apenas olhar, mas olhar em busca de respostas. Descrever não é fazer uma lista do que foi observado, mas relacioná-lo, tentando responder a uma hipótese.

Que instrumentos as crianças recém-chegadas à escola terão para atingir esses fins?

As crianças vão ser treinadas na leitura de textos e imagens e na observação de paisagens, para buscar as informações necessárias à ampliação de seu conhecimento. No caso da leitura de textos, se as crianças ainda não foram alfabetizadas, o professor pode ajudá-las nesse procedimento, lendo para a classe. A criança deve ser estimulada a registrar por escrito o que observou ou aprendeu. Afinal, o exercício da escrita não deve restringir-se à aula de Língua Portuguesa. A discussão e o compartilhamento de conhecimentos devem ser estimulados. Ao professor cabe incentivar essas atividades. O estudo do meio, a representação dos lugares e o trabalho com imagens são recursos didáticos importantes nessa fase do aprendizado.

Como a Geografia trabalha em conjunto com outras áreas?

É importante que a Geografia dialogue com a História, procurando a historicidade indispensável para a construção da interpretação de uma paisagem. Também há conceitos de Ciências Naturais que têm relação com os de Geografia. Por exemplo: o funcionamento da natureza e suas influências na vida humana. Um mesmo tema pode ser abordado de diferentes pontos de vista.

Como os alunos são introduzidos na linguagem cartográfica?

O primeiro passo pode ser o desenho, que também trabalha com a imagem. O desenho pode familiarizar os alunos com noções de distância, proporção e direção, que serão usadas na leitura de mapas. Outro ponto importante é verificar quais são os referenciais já utilizados pelas crianças para se localizar e orientar no espaço. A partir daí, o educador pode criar situações nas quais os alunos esquematizem e ampliem suas idéias de distância e orientação. A etapa seguinte é colocar as crianças em contato com mapas simples, sempre em situações carregadas de significado para os alunos. Os alunos devem ter acesso a diferentes tipos de mapa, atlas, globo, planta e maquete.

O que é a leitura de paisagem?

É o conhecimento de seus elementos sociais, culturais e naturais e a interação entre eles. A idéia é ajudar as crianças a perceber que essa paisagem não está parada, mas em constante processo de transformação. Um mesmo lugar está relacionado a vários espaços e tempos. Essa leitura pode se dar de forma direta, com a observação da própria paisagem, ou indireta, por meio de fotografias, vídeos, literatura e relatos.

Qual o conteúdo atitudinal da Geografia no ensino fundamental?

Desenvolver atitudes responsáveis com o meio ambiente, evitando o desperdício e valorizando os cuidados para a preservação da natureza é um exemplo. Compreender as diferenças – e respeitá-las – que se estabelecem a partir de paisagens também diversas, como o campo e a cidade, é outra postura importante de ser desenvolvida durante o ensino fundamental.

Quais devem ser os critérios de avaliação?

Ao final da 4a série, o aluno deve ter desenvolvido uma série das habilidades, como leitura, interpretação e representação do espaço por meio de mapas; reconhecimento da paisagem local e comparação dela com outras paisagens. Também deve ser capaz de perceber as diferenças entre campo e cidade, o papel das tecnologias, da informação, da comunicação e dos transportes na transformação das paisagens e na estruturação da vida em sociedade.  

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Consultoria: Célia Carolino Pires – coordenadora da área de Matemática dos PCN de Ensino Fundamental e integrante do Programa PCN em Ação; Caio Miranda da Costa – integrante do Programa PCN em Ação na área de Educação Física de Ensino Fundamental; Vinícius Signorelli – integrante do Programa PCN em Ação, na área de Temas Transversais; Antonia Terra – coordenadora da área de História dos PCN de Ensino Fundamental e integrante do Programa PCN em Ação; Heloísa Toledo Ferraz – coordenadora da área de Arte dos PCN de Ensino Fundamental; Ana Rosa Abreu – coordenadora geral dos PCN de Ensino Fundamental e do Programa PCN em Ação; Maria Tereza Perez Soares – coordenadora geral dos PCN de Ensino Fundamental.

ana.tessari@bol.com.br