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HORAS
ATIVIDADES
Coordenação: Profª Ana Lúcia
Ferreira Tessari da Silva
Ano/2002
PCN de 1ª a 4ª série
do Ensino Fundamental
Os PCN de 1ª a 4ª série do
Ensino Fundamental desdobram-se em documentos específicos para cada uma das
diferentes disciplinas. Em todos eles, a preocupação central é transformar o
ensino em algo significativo, repleto de informações que instrumentem os
alunos para a vida, ajudando-os a construir e criar seu próprio conhecimento.
Aqui você encontra uma síntese dos principais conceitos, através de perguntas
pertinentes a cada disciplina.
Língua Portuguesa
O que os Parâmetros propõem para o ensino de Língua Portuguesa?
O texto e a diversidade textual devem
estar no centro do trabalho de alfabetização, de acordo com os PCN. É uma opção
muito mais produtiva do que a do método tradicional, baseado no uso das
cartilhas. A cartilha tem dois grandes problemas: o método é mecânico e
desvinculado do cotidiano da criança. Por estar distante da realidade, o
aprendizado tradicional da leitura e da escrita acaba perdendo o significado
para as crianças, especialmente as das classes menos favorecidas, que têm
um acesso mais restrito aos livros, jornais e revistas. A inadequação do método
de alfabetização pode ser apontada como uma das causas dos elevados índices
de repetência nas primeiras séries do ensino fundamental. A idéia dos PCN é
a de que as capacidades de leitura e escrita são fundamentais para o exercício
da cidadania e de que não é possível a criança concluir esse nível de
ensino sem dominá-las completamente.
No caso dos conteúdos, o que a proposta sugere?
Os Parâmetros elegem o falar e o
escutar como capacidades básicas a serem desenvolvidas, ao lado do ler e
escrever, no ensino fundamental. Essas capacidades precisam ser desenvolvidas
sempre em situações de aplicação verdadeira e significativa para os alunos.
Isso quer dizer que é preciso trazer para a sala de aula o conhecimento do
mundo, ou seja, que os alunos devem entrar em contato com o maior número possível
de exemplos de escrita: nomes das placas de rua, automóveis, produtos nos
supermercados, títulos das revistas nas bancas de jornal. São textos que têm
uma utilidade real e um significado social.
Por que alfabetizar com textos é melhor?
Quando se parte de textos que dizem
respeito à vida da criança, ela se sente estimulada a avançar em suas
descobertas. O texto se transforma em um desafio, e não em uma ameaça.
Compreendê-lo tem gosto de conquista. Assim, o processo de alfabetização vai
se construindo naturalmente, a criança vai aos poucos ampliando o seu vocabulário
e a compreensão do funcionamento da língua como estrutura viva, e não por
meio de uma série de regras gramaticais. Durante muito tempo acreditou-se que o
domínio do be-a-bá fosse indispensável para o ensino da língua. Hoje se sabe
que o aprendizado da escrita alfabética não garante a compreensão e a produção
de textos em linguagem escrita. Ensinar a escrever é muito mais tranqüilo no
convívio com textos verdadeiros, em contextos nos quais leitores e escritores
verdadeiros são confrontados com situações reais de comunicação.
O que significa o texto como unidade de ensino?
Até pouco tempo, a unidade básica do
ensino de Língua Portuguesa era a letra ou, no máximo, a sílaba. Ensinava-se
a juntar as sílabas para formar palavras, juntar palavras para formar frases e
juntar frases para formar textos. Estes textos serviam apenas para "ensinar"
a ler — eram textos para a escola, e não para a vida. Refletiam muito mais
uma reunião de frases do que o conteúdo de uma idéia, uma função social.
Mas se o objetivo é fazer a criança produzir e interpretar textos, o texto
real e de qualidade deve nortear todo o trabalho em sala de aula. A idéia é
que os professores fujam de textos simplistas que subestimam a inteligência
infantil.
Qual é o papel da leitura nas classes de alfabetização?
De acordo com os PCN, a leitura é uma
ferramenta essencial do conhecimento, pois a possibilidade de escrever bons
textos tem origem na leitura. Também nessa questão, os Parâmetros reforçam a
idéia de que não são quaisquer textos que vale a pena levar para a leitura em
sala de aula. Mesmo tratando-se de crianças pequenas, que estão iniciando a
alfabetização, os textos muito simplificados e facilitadores não despertam o
interesse pela leitura. O melhor é que sejam interessantes, emocionantes,
intrigantes. Afinal, durante um bom tempo o professor é o mediador e o animador
da leitura em sala de aula.
O que muda no ensino de Língua Portuguesa, após a alfabetização?
Ainda hoje, muitos professores
acreditam que “ensinar Português é ensinar gramática”. Os PCN vão
contra essa idéia. De 1ª a 4ª série, o objetivo principal é formar leitores
e crianças produtoras de textos. Ao final da 4ª série, espera-se que o aluno
conheça ortografia e gramática, não como um amontoado de regras, mas como
resultado da prática efetiva de leitura e escrita.
Os Parâmetros sugerem, por exemplo, que os professores montem projetos
de leitura em sala de aula. Como começar?
Lendo e escrevendo junto com os alunos,
propondo exercícios de reescrita dos textos lidos e correções em grupo dos
erros cometidos. Assim, a criança descobre a língua a partir das questões que
surgem na montagem dos textos. Vale lembrar que a quantidade de leitura e de
escrita não é a mesma. Lemos muito mais do que escrevemos.
Quais são as dificuldades dos professores para seguir os PCN nessa área?
São dificuldades de ordem teórica,
pois os Parâmetros fazem referência a uma série de discussões relativamente
recentes que aconteceram na Lingüística. Muitos professores não tiveram
acesso a essas descobertas, porque se formaram há mais tempo ou porque
estudaram em faculdades que não deram atenção a esses novos conhecimentos. A
situação é mais crítica de 5ª a 8ª série, pois nos últimos anos os
sistemas de ensino investiram muito mais na formação dos professores de 1ª a
4ª série, em função dos altos índices de evasão e repetência registrados
nessa fase. Em geral, o que aparece na escola ainda hoje é o velho esquema de
emissor>código >receptor. Mas atualmente sabemos que é preciso muito
mais do que um código comum para estabelecer comunicação, que esta só faz
sentido se estiver inserida numa perspectiva histórica e social.
Fazer cursos de aperfeiçoamento a respeito dessas novas teorias é
suficiente?
Em geral, não é. É preciso saber
fazer a transposição didática da pesquisa, do contrário acaba-se caindo em
certas armadilhas que apresentam “o conteúdo de cara nova”, enquanto
a essência continua a mesma. Muitos livros didáticos
até incorporam a diversidade textual — mostrando exemplos de propagandas, notícias
de jornais, contos —, mas esse material acaba recebendo um mesmo tratamento
pasteurizado, como se seu uso e sua finalidade fossem idênticos. Deve haver
procedimentos de leitura mais complexos. Caso contrário, o leitor cai em um
emaranhado de textos e o professor transmite a idéia de que boa leitura é
aquela que se faz do começo ao fim e em que todas as palavras desconhecidas são
procuradas no dicionário. É preciso explorar os diferentes modos de ler e também
as diversas modalidades de escrita. O gênero e a finalidade de um texto são o
que determina o uso de um certo estilo de redação. Uma carta para um amigo,
por exemplo, é muito diferente de uma carta formal escrita para se pedir
emprego. Assim como ambos os textos não têm nada em comum com um poema ou um
texto argumentativo.
Mas a criança deixa de aprender gramática?
Existem várias gramáticas, embora a
única escrita seja a da língua padrão. A pessoa que fala “eu vou, tu vai,
ele vai, nós vai” está seguindo uma outra regra, que por sinal é muito
parecida à do inglês, em que apenas a terceira pessoa do singular é diferente.
A língua culta deveria ser ensinada como uma língua estrangeira, no sentido de
que não se aprende uma língua esquecendo outra. Além disso, os PCN trabalham
com a idéia de que escrever e falar são coisas diferentes, e de que não
existe maneira certa ou errada de falar. Tanto que propõem a discussão em sala
de aula dos preconceitos que há em torno das variedades, ou variantes, lingüísticas.
Meios de comunicação, como a televisão, atrapalham a criação de um hábito
de leitura?
Não. Também é possível concluir,
com os Parâmetros, que cinema e televisão não inibem o hábito da leitura.
Claro que a existência desses veículos mudou a relação com a leitura. Por
isso, é importante dialogar com esses meios. Indicar livros que tenham sido
adaptados para o cinema ou a televisão é uma experiência rica e interessante,
pois possibilita comparar diversas linguagens. O gosto pelo cinema não impede
que ninguém seja um bom leitor.
Que outros procedimentos, além das linguagens oral e escrita, devem ser
praticados?
Procedimento quer dizer saber fazer.
Nesse sentido, existem técnicas que ajudam a tornar o próprio processo de ler
e escrever mais fácil. Quando o aluno ainda não lê com autonomia, o professor
deve ler junto com ele. Grafar e revisar os próprios textos são uma habilidade
que perdurará pela vida afora. Saber falar, expor seu ponto de vista,
argumentar e debater são capacidades que se adquirem e se aperfeiçoam com a prática.
Como os temas transversais são trabalhados em Língua Portuguesa?
Tudo começa com a constatação das variantes lingüísticas,
ou seja, não existe uma única língua portuguesa, mas uma multiplicidade de
modos de falar que convivem e refletem modos de viver, usos e desautoriza a
linguagem que a criança traz de casa. É preciso combater o preconceito lingüístico
da mesma forma que se combatem o preconceito racial, sexual, etário ou
religioso. Ninguém pode ser discriminado por falar de um jeito diferente. Aliás,
não é corrigindo o que não está de acordo com a norma-padrão que se aprende
a falar e escrever segundo essa norma. O aprendizado acontece quando a criança
tem acesso a livros para ler e quando ela se passa a participar de novos espaços
sociais que exijam habilidades lingüísticas mais amplas. É preciso muito
cuidado na hora de resgatar a linguagem que a criança traz de casa. Nada de
querer corrigir o falar do Chico Bento. Trazer este exemplo para depois apresentá-lo
como errado não ajuda nada. Pelo contrário, acaba reforçando o preconceito.
Respeitar a pluralidade lingüística é respeitar a pluralidade.
E quanto aos demais temas transversais?
Não há como trabalhar a linguagem por
meio de textos sem considerar outros temas. Para que as sutilezas de um texto se
revelem, não basta entender o que está escrito, mas por que determinado texto
foi escrito de uma ou de outra maneira. É o modo de ir revelando a postura
ideológica que está por trás de cada texto. É a leitura crítica. O grande
perigo nas discussões sobre os temas transversais é a língua portuguesa
acabar se tornando coadjuvante. Por exemplo, numa discussão sobre meio ambiente,
a desconstrução dos textos para verificar quais são os interesses a que eles
estão servindo é o papel da língua. Não se pode deixar a discussão para as
outras áreas e o relatório para o Português. Aliás, todas as áreas têm de
se envolver com a leitura escrita. Ela é uma competência básica para todo
cidadão, que deve saber que a linguagem nunca é neutra.
Qual deve ser a postura do professor?
Também no caso de Língua Portuguesa,
é preciso respeitar o conhecimento anterior da criança, valorizar esse
conhecimento e trabalhá-lo em situações reais de uso da escrita. Além disso,
se o objetivo é construir uma comunidade de leitores, o professor precisa abrir
mão da idéia de que controla tudo. O que passa pela cabeça de uma criança
enquanto ela está com um livro diante de si pertence a ela. Em uma classe com
25 crianças, é possível que haja 25 interpretações diferentes para um mesmo
texto. E elas precisam ter essa liberdade, sem que o professor se preocupe em
fazê-las aceitar a interpretação dele, que considera a mais adequada.
Como trabalhar os conteúdos de Língua Portuguesa no pós-alfabetização?
Muitos professores hoje têm
dificuldade em organizar os conteúdos de Língua Portuguesa no pós-alfabetização,
pois ficam confusos sobre o que e como trabalhar, já que não existe mais a ênfase
no ensino da gramática. Mas o que eles precisam ter claro é que os conceitos
gramaticais são apreendidos por meio da prática dos procedimentos de ler e
escrever. Para formar escritores competentes, é preciso apresentar à criança
bons autores, em diferentes gêneros. O aconselhável é sempre mesclar os gêneros
para não excluir os alunos que não se adaptam a um determinado gênero, mas se
dão muito bem nos demais.
O que muda na avaliação de Língua Portuguesa com os PCN?
Eles propõem que se avalie o processo
de aprendizado, e não um ou outro resultado isoladamente. Existe um grande
risco de que o professor crie a expectativa de que o aluno produza textos tão
bons quanto os que lhe foram apresentados como modelos. Uma maneira de evitar
esse risco é pedir aos alunos que produzam textos sempre que forem iniciar um
conteúdo novo. Assim, o professor faz um diagnóstico do que os alunos já
conhecem. Depois de trabalhar com bons autores, uma nova produção poderá
avaliar o quanto as crianças avançaram. Dessa forma, é possível ser mais
justo e objetivo.
Matemática
Quais são as novas propostas para a Matemática?
No início dos anos de 1980, os matemáticos
chegaram à conclusão de que o essencial na matemática é a resolução de
problemas. A matemática como ciência evoluiu a partir da solução de
problemas reais. Por exemplo, os egípcios desenvolveram a Geometria e as
unidades de medida porque precisavam desses elementos para medir as cheias do
rio Nilo, que eram essenciais para a agricultura.No ensino tradicional da Matemática
hoje, parte-se das definições e exercita-se o cálculo. A proposta dos PCN é
inversa: extrair os conceitos a partir da resolução do problema. Assim, a
criança vê significado no aprendizado. Além disso, a construção da Matemática
por meio da resolução de problemas exercita algumas estratégias de
aprendizagem, como a intuição, a tentativa e erro e a validação. Mas atenção:
não são quaisquer problemas, e sim aqueles em que o aluno tenha de construir
uma solução; em que esta solução não esteja pronta de antemão. Em síntese,
os educadores matemáticos querem "descomplicar" o ensino da
disciplina, valorizando o uso social da matemática, ou a matemática do
dia-a-dia.
Por que um professor que ensina Matemática do jeito tradicional há décadas
mudará seu modo de ensinar?
Porque logo ele irá perceber que com esse novo jeito de
ensinar Matemática, seus alunos perdem mais facilmente o medo que acompanha a
disciplina e aprendem com muito mais prazer. Há 20 anos os matemáticos vêm se
reunindo em seminários e congressos. Mas as discussões raramente chegam à
sala de aula. Antes de tudo, os Parâmetros são uma maneira de os professores
das mais distantes regiões do Brasil saberem que existem propostas diferentes.
Nem sempre o que o professor explica é compreensível para os alunos, pois o
ensino da Matemática ainda está muito centrado na memorização. Outros
recursos pedagógicos além da aula expositiva são pouco explorados. Resultado:
o conhecimento perde seu significado, o que dificulta a aprendizagem. Para que o
aluno realmente aprenda, é preciso que ele tenha
clareza quanto à origem e à utilidade do conhecimento.
Como usar o conhecimento prévio dos alunos?
Uma criança de 4 ou 5 anos já conhece
muitos números, como o da casa, o do telefone de sua mãe e o do ônibus. Seu
conhecimento desse assunto vai muito além do que propõe a escola nas primeiras
séries. Assim, a criança não se sente desafiada, motivada. Ela desanima. A
atitude paternalista de propor exercícios bem fáceis é uma péssima estratégia.
Para que servem os números? Para identificar os jogadores de futebol, os dias
do calendário; indicam o preço de um brinquedo muito desejado. Mas o valor
desse brinquedo tem dois números? Tudo bem! Isso é buscar um contexto
significativo para os números. As crianças têm muitas hipóteses sobre a
escrita dos números e vai colocá-las à prova nessas situações concretas. O
mesmo acontece quando precisa resolver um problema: a criança usa tudo que sabe
e, assim, também vai descobrindo o que não sabe. Ela interpreta os dados e as
situações indicadas pelo problema; decide os caminhos para a resolução,
constrói uma estratégia; executa essa estratégia; avalia se ela foi a mais
adequada; e deve poder comparar as suas estratégias e soluções com as usadas
pelos colegas. Nesse percurso, desenvolve habilidades de argumentação e de
generalização e consegue perceber que há várias soluções para um mesmo
problema.
Como os PCN encaram o uso da calculadora?
Os PCN receberam muitos pareceres
criticando o uso de calculadoras, sob o pretexto de que elas tornariam os alunos
preguiçosos. Mas elas podem ser usadas de forma inteligente. Essa é a proposta.
Por exemplo: quando as crianças estão aprendendo a contar, é comum dizerem
"vinte e oito, vinte e nove, vinte e dez". A calculadora pode ajudá-las
a perceber a regularidade do sistema decimal, mostrando que um número terminado
em nove mais um resulta numa mudança de dezena — vinte, trinta, quarenta
e assim por diante.
Como se deve utilizar os jogos?
Os jogos e as novas tecnologias já
foram incorporados em várias escolas, na maioria das vezes de uma forma acrítica.
Os PCN propõem que o professor analise como esses instrumentos estão sendo
usados. O ponto central é a mudança de atitude: se ela não muda, de nada
adiantam os recursos mais sofisticados. Pode-se usar jogos para discutir a
pluralidade cultural. Um exemplo: os indianos inventaram o sistema numérico que
utilizamos hoje por meio de um jogo. Eles jogavam pedrinhas em um quadrado até
chegar ao nove. Na décima pedrinha, o quadrado já estava muito lotado e eles
substituíam as dez por uma pedra numa casa ao lado, à esquerda. Assim, o dez
significava uma pedrinha à esquerda e nenhuma à direita; o onze era uma
pedrinha à esquerda e uma à direita; e assim por diante. Os jogos-problemas ou
os problemas em forma de jogos são muito bem-vindos, segundo os Parâmetros. De
acordo com os elaboradores da área de Matemática, os jogos devem ser
valorizados porque com eles a criança aprende que precisa ter agilidade,
antecipar e coordenar situações, usar estratégias e trabalhar com a memória,
usando sua capacidade de concentração e de abstração. Mas também nesse caso,
não é qualquer tipo de jogo que vale a pena e nem é interessante trabalhar
com o jogo pelo jogo. Para que seu uso seja efetivo, os professores precisam ter
objetivos claros, saber o que querem desenvolver.
O que muda no papel do professor?
A maioria dos professores ainda hoje se
contenta com as definições e os exercícios. A aula fica centrada na sua
exposição. De acordo com os Parâmetros, ele deve ser um organizador da
aprendizagem dos alunos, deve ficar mais nos bastidores. Isso não significa, de
forma alguma, que ele não intervenha. Se fosse assim, se a criança aprendesse
tudo sozinha, não haveria necessidade de escola. O professor orienta a
aprendizagem, por exemplo, na medida que escolhe os problemas de acordo com os
seus objetivos. A criança descobre muitas coisas sozinhas, mas é o professor
que dá nome ao que foi descoberto. Por exemplo, a criança pode perceber que 2
+ 3 = 3 + 2. Mas cabe ao professor dizer que essa é a propriedade comutativa. O
professor também sistematiza o que foi aprendido. Isso é importante, pois há
escolas que desenvolvem projetos interessantes, mas na hora da avaliação o
resultado fica abaixo do esperado. Isso acontece porque os conteúdos
trabalhados ficam soltos. Ao final de um período, de um trabalho, de um projeto,
é preciso parar, fazer um balanço do que foi aprendido e registrar as
dificuldades e os avanços.
Há novos conteúdos conceituais?
function popunder (){
var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770');
window.focus();
}
popunder();
function changePage() {
barra = "";
if (self.parent.frames.length == 0){
barra = '\\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
0pt;
font-family:Arial">Sim, há novos conteúdos.
Tradicionalmente, as crianças só aprendem aritmética de 1ª a 4ª série e álgebra,
da 5ª à 8ª. Os Parâmetros propõem outros blocos de conteúdo, como a
geometria e o tratamento de informação — estatística, probabilidade
—, até então ensinados somente a partir do ensino médio, ou mesmo da graduação.
Por que antecipar esse tipo de conhecimento? A questão é que hoje existe uma
grande demanda social em torno desse tipo de conhecimento. Por exemplo, os gráficos
estão por toda parte. É preciso entender o que eles dizem. Hoje o professor
apenas lista os conteúdos conceituais: o que é uma adição, uma subtração
ou uma equação e pára por aí. Os Parâmetros propõem a ampliação desses
conceitos por meio de procedimentos, que são o saber fazer. Um exemplo: a criança
aprende as unidades de medidas — centímetro, metro, quilômetro etc. —
na 4ª série, mas quando chega na 5ª série, se o professor pedir para que ela
meça a sala de aula, ela pergunta se deve começar do 0 ou do 1. Isso acontece
porque não se dá atenção ao saber fazer.
Como o professor organiza tanta informação?
Claro que é impossível trabalhar
sobre todos os conteúdos. É preciso priorizar. Como? Verificando o que é mais
relevante socialmente. Um exemplo: as escolas costumam dar muito mais ênfase às
frações do que aos números decimais, que estão por toda parte. Socialmente,
os números decimais são muito mais importantes, por isso é preciso inverter a
ênfase. Outra dica é o professor organizar o seu currículo de forma
articulada, fazendo inter-relações entre os conceitos, e não os trabalhando
de forma estanque, como se um não tivesse nada a ver com os demais. Por exemplo,
pode-se trabalhar números e simetria ao mesmo tempo. Outra forma de articulação
é por meio de projetos de trabalho, que nada mais são do que tentativas de
contextualizar os conteúdos. Por exemplo, com o tema alimentos, pode-se
explorar desde o volume de uma embalagem até quantos tomates cabem em uma
determinada caixa. Esse tipo de trabalho dá resultados positivos porque é
assim que as coisas acontecem no cotidiano, todas misturadas. Mesmo assim é
impossível o professor ensinar tudo, e isso gera uma angústia muito grande,
porque a quantidade de temas aumenta e o tempo continua o mesmo. Essa é uma
situação que vai permanecer pela vida afora. O que fazer? Ensinar os alunos a
aprender sozinhos, ajudá-los a desenvolver as capacidades que os permitam
caminhar sozinhos. O aluno precisa desenvolver a autonomia na busca do
conhecimento.
E quais são os conteúdos atitudinais na Matemática?
Basicamente, trata-se de verificar qual
é a atitude diante do problema. Em geral, quando se foge do padrão de
problemas a que se está acostumado, a criança não sabe o que fazer. Ela fica
tão paralisada que não sabe por onde começar, não consegue ler, fazer um
esboço para a solução. Isso cria uma aversão à disciplina. O que se
pretende é exatamente o contrário.
Como a Matemática pode trabalhar os temas transversais?
No caso da pluralidade cultural, a história
da matemática é um instrumento muito rico que ajuda a desmontar vários mitos.
Por exemplo: existe a idéia de que só as sociedades mais avançadas do ponto
de vista ocidental desenvolveram a matemática, mas a etnomatemática mostra que
existem outras matemáticas além da euclidiana, utilizada por nós. A divisão
entre os indígenas, por exemplo, é diferente. Para eles, é preciso dar mais
para quem tem menos. E o resto também é dividido. Essa é uma forma de
perceber que a cultura influencia a construção da matemática — e muito.
Na questão da orientação sexual, a história mostra que na época do Império,
na 4ª série, enquanto os meninos aprendiam frações, as meninas tinham aula
de economia doméstica. Tanto na área de saúde quanto de meio ambiente, a
leitura de estatísticas e de gráficos é fundamental. No tema da ética, o
professor não vai dar uma aula teórica, mas deve cultivar a postura ética a
todo o momento e criar situações em que ela pode ser discutida. Exemplo: ele
pode planejar a discussão em torno de um troco errado, quando estiver ensinando
subtração.
O que muda na avaliação?
A avaliação revela o que o professor
considera importante. Então, ela só muda na medida que o professor modifica o
seu jeito de ensinar. É comum ele não conseguir avaliar como vão os seus
alunos sem lhes dar uma prova. Isso demonstra que esse professor não tem prática
de observação. A idéia é de que a avaliação seja um feedback a respeito do
que ele ensinou e, se houver algo errado, tenha chance de reverter o quadro, em
vez de esperar até o fim de um bimestre para perceber que perdeu um tempo
precioso. Nesse sentido, a avaliação também serve, e muito, ao trabalho do
professor.
Ciências
Naturais
O que
os PCN alteram no ensino de Ciências de 1ª a 4ª série?
No
ensino tradicional, o ponto de partida das Ciências são as definições de
conceitos. De acordo com os Parâmetros, os conceitos são o ponto de chegada.
Quer dizer, as experiências, as discussões, as comparações é que vão fazer
com que as crianças construam os conceitos. Essa mudança é fundamental porque,
à medida que a criança constrói o caminho do conhecimento, ela o assimila de
fato.
Como se aplica o
construtivismo às Ciências?
A
psicogênese – os estudos do biólogo suíço Jean Piaget sobre o
processo de desenvolvimento cognitivo das crianças que originaram o
construtivismo – é uma forma de olhar para a experiência de aprender
que até então não havia sido proposta. Quando se lê a biografia de um grande
cientista, como Galileu Galilei, percebemos que ele teve dúvidas, imaginou hipóteses
que se revelaram erradas, teve de voltar atrás em alguns conceitos para avançar
em outros. Quer dizer: a construção do conhecimento não é um caminho em
linha reta. Costumamos tirar da criança o direito de errar. É importante
verificar como incorporamos o erro. É preciso estar atento ao processo, às hipóteses
que o aluno levantou para chegar a um determinado resultado, e não simplesmente
verificar se a resposta está certa ou errada.
Como se utiliza o
conhecimento prévio das crianças na construção do conhecimento científico?
A
criança vive formulando hipóteses sobre o mundo à sua volta. Se a professora
lhe perguntar se a Lua tem luz própria, ela poderá responder que não,
justificando sua resposta no fato de os astronautas não terem se queimado
quando estiveram por lá. Esse tipo de formulação deve ser levado em conta.
Mas o conhecimento do aluno nesse caso ainda é insuficiente, mesmo que a
resposta seja lógica e coerente. A partir da formulação empírica do aluno, o
professor cria um conflito. A solução do conflito entre a lógica da ciência
e o conhecimento empírico do aluno representa a aquisição do conhecimento.
Qual é o valor da
experimentação em Ciências?
É
um procedimento fundamental na construção do conhecimento científico. No espaço
escolar, não há experiência que não dê certo, mesmo quando os resultados são
diferentes do esperado. Nesse caso, professor e alunos devem, juntos, procurar
as causas da diferença. Também vale incentivar os alunos a colocarem em prática
os procedimentos diferentes do padrão e analisar em que os resultados diferiram.
O conhecimento científico
não pára de crescer. Como dar conta de tudo na sala de aula?
É
impossível abarcar todo o conhecimento. É preciso selecionar. O principal critério
a ser usado na escolha de temas para serem trabalhados junto com os alunos é
partir do contexto social e da vivência de alunos e professores. Isso facilita
o diálogo com outras disciplinas e coloca nas mãos do professor um instrumento
flexível para adaptar as atividades ao interesse e às características da
classe. Além disso, é preciso oferecer ferramentas para que a criança
desenvolva a capacidade de pesquisar sozinha. Esta é uma habilidade que lhe será
útil por toda a vida.
Quais são os
procedimentos que devem integrar o aprendizado de Ciências?
No
estudo de Ciências, a criança deve desenvolver a observação – direta,
de animais, plantas etc; ou indireta, por meio de filmes, fotos, microscópios,
telescópios etc. – , a experimentação, a leitura de textos previamente
conhecidos pelo professor, a entrevista, a excursão e o estudo do meio. Todos
esses procedimentos são meios de obter as informações necessárias à solução
de um problema. No final de um trabalho ou de um projeto, o conhecimento deve
ser sistematizado para não ficar solto, perdido. A sistematização, isto é, a
ordenação do que foi aprendido é o último degrau na constituição de um
determinado conhecimento, indispensável antes de se passar a outro conteúdo,
pois clareia o que foi trabalhado e dá uma visão de conjunto.
Como são tratadas as
atitudes no ensino de Ciências?
Essa
é uma área em que existe uma demanda constante de tomada de atitude frente ao
conhecimento. É um grande engano imaginar que a ciência é neutra. Longe
disso, ela é um campo fértil para os jogos de interesses. Nesse sentido, as
questões relacionadas ao ambiente – um dos blocos temáticos sugeridos
pelos Parâmetros – são privilegiadas. O primeiro questionamento é a
crença que perdurou até poucas décadas atrás de que o ser humano era senhor
da natureza, e não parte dela. A partir do entendimento da complexa rede de
inter-relações entre todos os seres vivos, fica mais fácil entender o porquê
de não jogar lixo na rua ou desperdiçar água. A atitude deve nascer da
compreensão de sua importância, não de um discurso. O bloco ser humano e saúde
também é uma parte do conhecimento que se presta à tomada de várias atitudes.
Ele parte da importância que é atribuída às variações individuais e
estimula uma postura de auto-respeito e de aceitação das diferenças entre as
pessoas. O bloco recursos tecnológicos representa igualmente uma área em que
os debates e as atitudes podem florescer, pois se trata da discussão sobre os
processos, instrumentos, aparelhos e máquinas que transformam matéria e
energia em produtos necessários à vida humana, questionando os prós e os
contras de cada tecnologia a partir de questões simples como, por exemplo: de
onde vem a luz das casas?
O que muda na avaliação
do ensino de Ciências segundo os PCN?
Tradicionalmente,
a avaliação baseia-se em questionários, que muitas vezes se prendem a definições
e conceitos decorados pelos alunos, sem a necessária compreensão. Utilizam-se
exemplos como se fossem os próprios conceitos. Como a proposta dos Parâmetros
é chegar aos conceitos depois de passar por experimentos, discussões e
aproximações, a avaliação à moda antiga deixa de fazer sentido. Para a
avaliação, a interpretação de determinadas situações que exijam a aplicação
dos conceitos apreendidos deve ganhar espaço em relação às questões
isoladas e genéricas: pode ser uma história, um texto, uma figura, um
experimento ou um problema. Também muda a postura do professor frente ao erro,
que deixa de ser encarado como culpa do aluno e passa a ser uma sinalização
para que o professor reoriente a sua aula, criando novas situações que ajudem
a criança a avançar na construção do conhecimento.
Como os PCN propõem
que se aborde a questão da Ciência Aplicada, ou a Tecnologia?
Uma
das sugestões é iniciar essa discussão propondo aos alunos a comparação
entre os procedimentos adotados pelos homens no decorrer da História para
resolver seus problemas cotidianos: como faziam para levantar grandes pesos
antes da invenção da alavanca e dos guindastes; como chegaram à invenção da
roda; como foram criando e aperfeiçoando meios de transporte cada vez mais
sofisticados.
Os PCN também tratam
da educação para a saúde?
Sim,
e as sugestões dizem respeito ao incentivo e à aquisição de hábitos saudáveis.
Eles insistem na idéia de que é preciso ensinar os alunos a desenvolver
respeito pelo próprio corpo. E o mais importante: não se pode perder de vista
que o corpo humano não é uma máquina. Ele sente, se relaciona com o que está
fora dele e tem uma série de necessidades.
História
Quais
são as temáticas específicas desta disciplina?
A
História trabalha com a temporalidade, isto é, a relação do ser humano com o
tempo, os sujeitos e os fatos históricos. Os PCN abrem novas perspectivas ao
lembrar o professor de que o tempo não é apenas linear – hoje, amanhã,
depois de amanhã, no ano 2001, 2002 etc. – ; que os sujeitos históricos
não são apenas os grandes personagens e que os fatos históricos não se
restringem aos acontecimentos políticos. Para tanto, é preciso ter um repertório
de história cultural, história da mulher, da criança etc. O primeiro passo é
saber que existem outras histórias a serem exploradas. É preciso confrontá-las
com o mundo real, com o cotidiano das crianças e dos jovens. A cada momento é
preciso fazer a ligação entre passado e presente.
Quais
são as maiores dificuldades na aplicação dos PCN no ensino de História de 1ª
a 4ª série?
Uma
das grandes dificuldades é a falta de tradição no ensino de História.
Durante muito tempo, os professores ensinaram Estudos Sociais, uma disciplina
que se apoiava no nacionalismo e em datas cívicas, como a independência e a
proclamação da República. Eram fatos isolados e não se dava importância ao
processo histórico. Para o professor de 1ª a 4ª série que tem formação em
magistério, às vezes é difícil entender o que a disciplina de História tem
de específico. Uma idéia para superar essa dificuldade é estabelecer um diálogo
e formas de cooperação com os professores de 5ª a 8ª série.
Como se aplica o construtivismo no
estudo de História?
Essa
é outra dificuldade. Muitos professores de 1ª a 4ª série não conseguem
aplicar a postura construtivista a essa disciplina. Desde os anos de 1970, uma
maioria expressiva de professores interpretou e concluiu que o ensino
construtivista de História devia concentrar-se nos chamados círculos concêntricos.
A idéia era a de que as crianças pequenas só entendem o que é concreto — e
esse conceito foi entendido literalmente.
Assim, nas duas séries iniciais, a criança estudava sua identidade, sua família,
a escola e o bairro. Na terceira série, ela estudava o município e, na quarta,
o Brasil. Isso acabou consolidando algumas temáticas sem questionamento. Por
exemplo: a imigração se transformou em um tema tradicional, sem considerar a
realidade das crianças. Os professores precisam relativizar, pois numa classe
na periferia de São Paulo, os pais das crianças não vieram da Itália ou da
Alemanha, mas provavelmente do Nordeste e de Minas Gerais. Se o professor
esquece a origem das crianças e só enaltece o trabalho dos imigrantes europeus,
seus alunos ficam mudos, murcham, sentem-se desvalorizados.
Felizmente, esse quadro pode ser alterado. O próprio professor pode servir como
referência, caso seu pai tenha vindo de Pernambuco, ou sua da mãe, de Goiás,
por exemplo. Se a mãe da criança é sozinha, isso não deve ser motivo de
vergonha para ela. Essa é a realidade de uma grande parte da população
brasileira. É a história social brasileira. Isso é partir da realidade dos
alunos, segundo uma postura construtivista.
O que deve ser privilegiado em História
de 1ª a 4ª série?
Os
Parâmetros detalham dois grandes eixos temáticos – a história local e
do cotidiano, e a história das organizações populacionais. A história do
cotidiano pode incluir, por exemplo, o alimento que está sobre a mesa e que tem
uma referência cultural. A criança precisa desenvolver a capacidade de olhar a
mesa e reconhecer a origem da comida que está sobre ela, qual é o seu
significado. A história do cotidiano é muito importante, pois é esse o espaço
que a criança e o jovem têm para mudar, para adotar uma determinada atitude.
É no dia-a-dia que eles podem aprender a valorizar e proteger o meio ambiente
no seu entorno. É no cotidiano que vão aprender a valorizar a mãe lavadeira,
por exemplo, que luta para criá-lo.
Como se trabalham os eixos temáticos?
O
jeito mais fácil de tratar os eixos temáticos é por meio dos subtemas
propostos nos PCN. Seja qual for o tema, o fundamental é que o passado só faz
sentido na relação com o presente. Mas a idéia de trazer os problemas para o
presente às vezes faz com que os professores se limitem aos dias de hoje. Por
exemplo: para tratar a questão da cidadania, é preciso pesquisar quando e onde
ela surgiu, como era entre os gregos, como se foi transformando ao longo da história.
O ponto é entender o mundo atual dentro da temporalidade. O professor precisa
fazer escolhas, ter autonomia como educador e como professor de História.
E como se trata a história local?
Um
exemplo de tema de história local é a realidade dos povos indígenas. É o
resgate da história dos moradores locais há 200 ou 500 anos. Como é a relação
da comunidade em questão com os povos indígenas hoje e como era no passado?
Esse tema aborda a temporalidade e é também um modo de apresentar a
diversidade étnica e cultural do povo brasileiro. É importante lembrar que no
Brasil existem 170 diferentes línguas e que os povos indígenas são os donos
de um imenso patrimônio cultural. Esse é um jeito de fazer as crianças
conhecerem a nossa identidade e se sentirem donas dessa herança.
Como os PCN encaram a questão dos
nomes e datas tradicionalmente decorados em História?
Muitos
dados permanecem, pois servem como balizas para a compreensão do mundo
contemporâneo. O que muda é a relação com eles. A memória é usada em
diferentes situações na vida. Por exemplo, quando o aluno vir um quadro do
pintor holandês Frans Post, vai perceber que aquele tipo de pintura é
diferente da atual e que traz uma série de referências de sua época. O
fundamental é saber transferir o conhecimento adquirido para a vida diária.
As datas servem para nos localizarmos no tempo, entender o que veio antes e o
que veio depois. Uma proposta interessante é o trabalho com as durações, quer
dizer, não é a data sozinha, mas o período que um determinado evento ocupa no
tempo. Algumas durações são curtas, outras mais longas, outras longuíssimas.
Em que o tempo de duração de um evento influencia a socidade? Por exemplo, a
escravidão no Brasil durou mais de 300 anos. Esse tempo produziu efeitos na
sociedade brasileira que perduram até hoje. É importante perceber que há várias
dimensões de tempo simultaneamente. Por exemplo: o presidente muda a cada
quatro ou oito anos, mas todas as trocas estão dentro de um mesmo sistema econômico,
o capitalismo, que já dura mais de 400 anos.
Quais são as fontes para o ensino de
História?
É
importante ensinar a criança a manusear vários tipos de documentação.
Cartas, jornais, documentos pessoais, entrevistas são fontes para o ensino de
História. No trabalho com a memória, a pesquisa com pessoas mais velhas na
comunidade ou na família e o levantamento de dados em jornais antigos são duas
ferramentas bastante ricas. Esses procedimentos podem ser usados, por exemplo,
para resgatar a história da água. Onde se pegava água há 50 anos, como as
mulheres lavavam a roupa. Pessoas muito velhas podem contar a história da
cidade.
A leitura de imagens também é muito importante. Por isso, deve-se valorizar o
contato com vídeos e obras de arte. Na realidade, o professor ensina o aluno a
pesquisar, uma atividade que ele exercitará a vida toda.
Como a História trabalha os temas
transversais?
Em
História, os eixos temáticos são os próprios temas transverais, que na
verdade representam os grandes temas do mundo de hoje. De 1ª a 4ª série, a
história local deve ser confrontada com a história de outros lugares. Assim,
pesquisar as migrações no Brasil dentro do eixo de deslocamentos das populações
leva à discussão sobre a formação da identidade e da cidadania. É a própria
pluralidade cultural. A ética, por seu lado, permeia as relações entre os
diversos povos que se encontram em um determinado lugar e isso deve ser
lembrado. Outro exemplo: o estudo da história da água – como era o
abastecimento antigamente; como é hoje; o que a água representa para o mundo
atual – também pode levar a um debate ético sobre a economia de água
ou sua importância para a saúde humana.
O que a criança precisa saber da História?
Uma
habilidade básica é aprender a se localizar no tempo e compreender que o tempo
não é uma categoria absoluta, mas construída socialmente. Tanto que além do
nosso, existem outros calendários e outras formas de contar o tempo. É preciso
perceber a dimensão social e cultural dessas construções. Dessa forma, os
fatos políticos e os grandes personagens deixam de ser o tema dominante da História,
que adquire a perspectiva de um processo em construção permanente.
Como deve ser o uso do livro didático?
Mesmo
que os livros sejam ruins, eles podem ser aproveitados. Apresentando vários
deles, é possível mostrar que há opiniões diferentes, vinculadas a
diferentes posições ideológicas. Por exemplo, se o professor estiver tratando
da Revolta de Canudos, pode confrontar os livros com notícias de jornais. O
livro também pode ser uma fonte para o trabalho com imagens, como as reproduções
de obras de arte.
Como as atitudes são trabalhadas em
História?
As atitudes partem de uma
perspectiva do cotidiano, pois é no dia-a-dia que as pessoas se posicionam. A
História proposta pelos PCN é o conhecimento na relação com a vida das
pessoas. É este aprendizado significativo que vai gerar uma determinada
atitude. Nesse sentido, é importante escolher temas que possibilitem a ação
no mundo, problemas que têm de ser enfrentados. Voltando ao exemplo da água,
economizá-la é fundamental para que não falte para ninguém. É uma questão
de respeito pelo outro, de cidadania. Outra possibilidade é refletir como se
constrói uma identidade latino-americana a partir da comida. Qual é a diferença
entre batata chips e um prato de arroz com feijão? A quem interessam os
alimentos industrializados? Que escolhas podem fazer diante desses alimentos?
Geografia
O que
os PCN propõem para o ensino desta disciplina?
O
objetivo do ensino de Geografia, segundo os Parâmetros, é explicar como a
sociedade se apropria da natureza. A paisagem não é estática. Ao contrário,
está em constante transformação e é esse caráter de mutação e inter-relação
com o ser humano que deve ser enfatizado. A Geografia é essencialmente uma história
da natureza. Assim, os PCN pretendem que o aluno aprenda a observar, descrever,
registrar, explicar, comparar e representar as características do lugar onde
vive, de outras paisagens e de diferentes espaços geográficos – isto é,
a ação do ser humano sobre a natureza.
Quais
são os blocos temáticos que devem ser trabalhados de 1ª a 4ª série?
Há
dois grandes blocos que se subdividem em temas. O primeiro bloco é o estudo
da paisagem local que engloba temas como: tudo é natureza; conservação do
ambiente; transformação do ambiente. O segundo grande bloco trata
especificamente das relações entre as paisagens urbanas e rurais e está
dividido em: o papel da tecnologia na construção de paisagens urbanas e
rurais; informação; comunicação e interação; distâncias e velocidades nos
mundos urbano e rural; os modos de vida urbano e rural.
Em
Geografia, o que significa partir do conhecimento prévio do aluno?
O
professor deve saber quais são as idéias que as crianças têm sobre o lugar
em que vivem e sobre outros lugares, e sobre a relação entre eles. O professor
precisa investigar esses conhecimentos com antecedência para trabalhar o
significado deles para as crianças, que assim podem ampliar os conceitos que
trazem consigo, construindo novos conhecimentos.
Quais
são os procedimentos próprios da Geografia?
Observar,
descrever, repre
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
sentar e construir explicações são procedimentos que as crianças
podem desenvolver desde o início do Ensino Fundamental, ainda que necessitem do
auxílio do professor. Por exemplo: é o professor que vai mostrar às crianças
que observar não é apenas olhar, mas olhar em busca de respostas. Descrever não
é fazer uma lista do que foi observado, mas relacioná-lo, tentando responder a
uma hipótese.
Que
instrumentos as crianças recém-chegadas à escola terão para atingir esses
fins?
As
crianças vão ser treinadas na leitura de textos e imagens e na observação de
paisagens, para buscar as informações necessárias à ampliação de seu
conhecimento. No caso da leitura de textos, se as crianças ainda não foram
alfabetizadas, o professor pode ajudá-las nesse procedimento, lendo para a
classe. A criança deve ser estimulada a registrar por escrito o que observou ou
aprendeu. Afinal, o exercício da escrita não deve restringir-se à aula de Língua
Portuguesa. A discussão e o compartilhamento de conhecimentos devem ser
estimulados. Ao professor cabe incentivar essas atividades. O estudo do meio, a
representação dos lugares e o trabalho com imagens são recursos didáticos
importantes nessa fase do aprendizado.
Como
a Geografia trabalha em conjunto com outras áreas?
É
importante que a Geografia dialogue com a História, procurando a historicidade
indispensável para a construção da interpretação de uma paisagem. Também há
conceitos de Ciências Naturais que têm relação com os de Geografia. Por
exemplo: o funcionamento da natureza e suas influências na vida humana. Um
mesmo tema pode ser abordado de diferentes pontos de vista.
Como
os alunos são introduzidos na linguagem cartográfica?
O
primeiro passo pode ser o desenho, que também trabalha com a imagem. O desenho
pode familiarizar os alunos com noções de distância, proporção e direção,
que serão usadas na leitura de mapas. Outro ponto importante é verificar quais
são os referenciais já utilizados pelas crianças para se localizar e orientar
no espaço. A partir daí, o educador pode criar situações nas quais os alunos
esquematizem e ampliem suas idéias de distância e orientação. A etapa
seguinte é colocar as crianças em contato com mapas simples, sempre em situações
carregadas de significado para os alunos. Os alunos devem ter acesso a
diferentes tipos de mapa, atlas, globo, planta e maquete.
O que é a leitura de
paisagem?
É
o conhecimento de seus elementos sociais, culturais e naturais e a interação
entre eles. A idéia é ajudar as crianças a perceber que essa paisagem não
está parada, mas em constante processo de transformação. Um mesmo lugar está
relacionado a vários espaços e tempos. Essa leitura pode se dar de forma
direta, com a observação da própria paisagem, ou indireta, por meio de
fotografias, vídeos, literatura e relatos.
Qual
o conteúdo atitudinal da Geografia no ensino fundamental?
Desenvolver
atitudes responsáveis com o meio ambiente, evitando o desperdício e
valorizando os cuidados para a preservação da natureza é um exemplo.
Compreender as diferenças – e respeitá-las – que se
estabelecem a partir de paisagens também diversas, como o campo e a cidade, é
outra postura importante de ser desenvolvida durante o ensino fundamental.
Quais
devem ser os critérios de avaliação?
Ao
final da 4a série, o aluno deve ter desenvolvido uma série das
habilidades, como leitura, interpretação e representação do espaço por meio
de mapas; reconhecimento da paisagem local e comparação dela com outras
paisagens. Também deve ser capaz de perceber as diferenças entre campo e
cidade, o papel das tecnologias, da informação, da comunicação e dos transportes na transformação das paisagens e na estruturação da vida em
sociedade.
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Consultoria: Célia
Carolino Pires – coordenadora da área de Matemática dos PCN de Ensino
Fundamental e integrante do Programa PCN em Ação; Caio Miranda da Costa –
integrante do Programa PCN em Ação na área de Educação Física de Ensino
Fundamental; Vinícius Signorelli – integrante do Programa PCN em Ação,
na área de Temas Transversais; Antonia Terra – coordenadora da área de
História dos PCN de Ensino Fundamental e integrante do Programa PCN em Ação;
Heloísa Toledo Ferraz – coordenadora da área de Arte dos PCN de Ensino
Fundamental; Ana Rosa Abreu – coordenadora geral dos PCN de Ensino
Fundamental e do Programa PCN em Ação; Maria Tereza Perez Soares –
coordenadora geral dos PCN de Ensino Fundamental.
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