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Quais são
as novas propostas para a Matemática?
No início
dos anos de 1980, os matemáticos chegaram à conclusão de que o
essencial na matemática é a resolução de problemas. A matemática
como ciência evoluiu a partir da solução de problemas reais. Por
exemplo, os egípcios desenvolveram a Geometria e as unidades de medida
porque precisavam desses elementos para medir as cheias do rio Nilo, que
eram essenciais para a agricultura.
No ensino tradicional da Matemática hoje, parte-se das definições e
exercita-se o cálculo. A proposta dos PCN é inversa: extrair os
conceitos a partir da resolução do problema. Assim, a criança vê
significado no aprendizado. Além disso, a construção da Matemática
por meio da resolução de problemas exercita algumas estratégias de
aprendizagem, como a intuição, a tentativa e erro e a validação.
Mas atenção: não são quaisquer problemas, e sim aqueles em que o
aluno tenha de construir uma solução; em que esta solução não
esteja pronta de antemão. Em síntese, os educadores matemáticos
querem "descomplicar" o ensino da disciplina, valorizando o
uso social da matemática, ou a matemática do dia-a-dia.
Por que
um professor que ensina Matemática do jeito tradicional há décadas
mudará seu modo de ensinar?
Porque
logo ele irá perceber que com esse novo jeito de ensinar Matemática,
seus alunos perdem mais facilmente o medo que acompanha a disciplina e
aprendem com muito mais prazer. Há 20 anos os matemáticos vêm se
reunindo em seminários e congressos. Mas as discussões raramente
chegam à sala de aula. Antes de mais nada, os Parâmetros são uma
maneira de os professores das mais distantes regiões do Brasil saberem
que existem propostas diferentes. Nem sempre o que o professor explica
é compreensível para os alunos, pois o ensino da Matemática ainda está
muito centrado na memorização. Outros recursos pedagógicos além da
aula expositiva são pouco explorados. Resultado: o conhecimento perde
seu significado, o que dificulta a aprendizagem. Para que o aluno
realmente aprenda, é preciso que ele tenha clareza quanto à origem e
à utilidade do conhecimento.
Como
usar o conhecimento prévio dos alunos?
Uma
criança de 4 ou 5 anos já conhece muitos números, como o da casa, o
do telefone de sua mãe e o do ônibus. Seu conhecimento desse assunto
vai muito além do que propõe a escola nas primeiras séries. Assim, a
criança não se sente desafiada, motivada. Ela desanima. A atitude
paternalista de propor exercícios bem fáceis é uma péssima estratégia.
Para que servem os números? Para identificar os jogadores de futebol,
os dias do calendário; indicam o preço de um brinquedo muito desejado.
Mas o valor desse brinquedo tem dois números? Tudo bem! Isso é buscar
um contexto significativo para os números. As crianças têm muitas hipóteses
sobre a escrita dos números e vai colocá-las à prova nessas situações
concretas.
O mesmo acontece quando precisa resolver um problema: a criança usa
tudo que sabe e, assim, também vai descobrindo o que não sabe. Ela
interpreta os dados e as situações indicadas pelo problema; decide os
caminhos para a resolução, constrói uma estratégia; executa essa
estratégia; avalia se ela foi a mais adequada; e deve poder comparar as
suas estratégias e soluções com as usadas pelos colegas. Nesse
percurso, desenvolve habilidades de argumentação e de generalização
e consegue perceber que há várias soluções para um mesmo problema.
Como os
PCN encaram o uso da calculadora?
Os PCN
receberam muitos pareceres criticando o uso de calculadoras, sob o
pretexto de que elas tornariam os alunos preguiçosos. Mas elas podem
ser usadas de forma inteligente. Essa é a proposta. Por exemplo: quando
as crianças estão aprendendo a contar, é comum dizerem "vinte e
oito, vinte e nove, vinte e dez". A calculadora pode ajudá-las a
perceber a regularidade do sistema decimal, mostrando que um número
terminado em nove mais um resulta numa mudança de dezena —
vinte, trinta, quarenta e assim por diante.
Como se
deve utilizar os jogos?
Os
jogos e as novas tecnologias já foram incorporados em várias escolas,
na maioria das vezes de uma forma acrítica. Os PCN propõem que o
professor analise como esses instrumentos estão sendo usados. O ponto
central é a mudança de atitude: se ela não muda, de nada adiantam os
recursos mais sofisticados. Pode-se usar jogos para discutir a
pluralidade cultural. Um exemplo: os indianos inventaram o sistema numérico
que utilizamos hoje por meio de um jogo. Eles jogavam pedrinhas em um
quadrado até chegar ao nove. Na décima pedrinha, o quadrado já estava
muito lotado e eles substituíam as dez por uma pedra numa casa ao lado,
à esquerda. Assim, o dez significava uma pedrinha à esquerda e nenhuma
à direita; o onze era uma pedrinha à esquerda e uma à direita; e
assim por diante.
Os jogos-problemas ou os problemas em forma de jogos são muito
bem-vindos, segundo os Parâmetros. De acordo com os elaboradores da área
de Matemática, os jogos devem ser valorizados porque com eles a criança
aprende que precisa ter agilidade, antecipar e coordenar situações,
usar estratégias e trabalhar com a memória, usando sua capacidade de
concentração e de abstração. Mas também nesse caso, não é
qualquer tipo de jogo que vale a pena e nem é interessante trabalhar
com o jogo pelo jogo. Para que seu uso seja efetivo, os professores
precisam ter objetivos claros, saber o que querem desenvolver.
O que
muda no papel do professor?
A
maioria dos professores ainda hoje contenta-se com as definições e os
exercícios. A aula fica centrada na sua exposição. De acordo com os
Parâmetros, ele deve ser um organizador da aprendizagem dos alunos,
deve ficar mais nos bastidores. Isso não significa, de forma alguma,
que ele não intervenha. Se fosse assim, se a criança aprendesse tudo
sozinha, não haveria necessidade de escola.
O professor orienta a aprendizagem, por exemplo, na medida que escolhe
os problemas de acordo com os seus objetivos. A criança descobre muitas
coisas sozinha, mas é o professor que dá nome ao que foi descoberto.
Por exemplo, a criança pode perceber que 2 + 3 = 3 + 2. Mas cabe ao
professor dizer que essa é a propriedade comutativa.
O professor também sistematiza o que foi aprendido. Isso é importante,
pois há escolas que desenvolvem projetos interessantes, mas na hora da
avaliação o resultado fica abaixo do esperado. Isso acontece porque os
conteúdos trabalhados ficam soltos. Ao final de um período, de um
trabalho, de um projeto, é preciso parar, fazer um balanço do que foi
aprendido e registrar as dificuldades e os avanços.
Há
novos conteúdos conceituais?
Sim, há
novos conteúdos. Tradicionalmente, as crianças só aprendem aritmética
de 1ª a 4ª série e álgebra, da 5ª à 8ª. Os Parâmetros propõem
outros blocos de conteúdo, como a geometria e o tratamento de informação —
estatística, probabilidade —, até então ensinados somente a partir
do ensino médio, ou mesmo da graduação. Por que antecipar esse tipo
de conhecimento? A questão é que hoje existe uma grande demanda social
em torno desse tipo de conhecimento. Por exemplo, os gráficos estão
por toda parte. É preciso entender o que eles dizem.
Hoje o professor apenas lista os conteúdos conceituais: o que é uma
adição, uma subtração ou uma equação e pára por aí. Os Parâmetros
propõem a ampliação desses conceitos por meio de procedimentos, que são
o saber fazer. Um exemplo: a criança aprende as unidades de medidas —
centímetro, metro, quilômetro etc. — na 4ª série, mas quando
chega na 5ª série, se o professor pedir para que ela meça a sala de
aula, ela pergunta se deve começar do 0 ou do 1. Isso acontece porque não
se dá atenção ao saber fazer.
Como o
professor organiza tanta informação?
Claro
que é impossível trabalhar sobre todos os conteúdos. É preciso
priorizar. Como? Verificando o que é mais relevante socialmente. Um
exemplo: as escolas costumam dar muito mais ênfase às frações do que
aos números decimais, que estão por toda parte. Socialmente, os números
decimais são muito mais importantes, por isso é preciso inverter a ênfase.
Outra dica é o professor organizar o seu currículo de forma
articulada, fazendo inter-relações entre os conceitos, e não
trabalhando-os de forma estanque, como se um não tivesse nada a ver com
os demais. Por exemplo, pode-se trabalhar números e simetria ao mesmo
tempo. Outra forma de articulação é por meio de projetos de trabalho,
que nada mais são do que tentativas de contextualizar os conteúdos.
Por exemplo, com o tema alimentos, pode-se explorar desde o volume de
uma embalagem até quantos tomates cabem em uma determinada caixa. Esse
tipo de trabalho dá resultados positivos porque é assim que as coisas
acontecem no cotidiano, todas misturadas. Mesmo assim é impossível o
professor ensinar tudo, e isso gera uma angústia muito grande, porque a
quantidade de temas aumenta e o tempo continua o mesmo. Essa é uma
situação que vai permanecer pela vida afora. O que fazer? Ensinar os
alunos a aprender sozinhos, ajudá-los a desenvolver as capacidades que
os permitam caminhar sozinhos. O aluno precisa desenvolver a autonomia
na busca do conhecimento.
E quais
são os conteúdos atitudinais na Matemática?
Basicamente,
trata-se de verificar qual é a atitude diante do problema. Em geral,
quando se foge do padrão de problemas a que se está acostumado, a
criança não sabe o que fazer. Ela fica tão paralisada que não sabe
por onde começar, não consegue ler, fazer um esboço para a solução.
Isso cria uma aversão à disciplina. O que se pretende é exatamente o
contrário.
Como a
Matemática pode trabalhar os temas transversais?
No caso
da pluralidade cultural, a história da matemática é um instrumento
muito rico que ajuda a desmontar vários mitos. Por exemplo: existe a idéia
de que só as sociedades mais avançadas do ponto de vista ocidental
desenvolveram a matemática, mas a etnomatemática mostra que existem
outras matemáticas além da euclidiana, utilizada por nós. A divisão
entre os indígenas, por exemplo, é diferente. Para eles, é preciso
dar mais para quem tem menos. E o resto também é dividido. Essa é uma
forma de perceber que a cultura influencia a construção da matemática —
e muito.
Na questão da orientação sexual, a história mostra que na época do
Império, na 4ª série, enquanto os meninos aprendiam frações, as
meninas tinham aula de economia doméstica. Tanto na área de saúde
quanto de meio ambiente, a leitura de estatísticas e de gráficos é
fundamental. No tema da ética, o professor não vai dar uma aula teórica,
mas deve cultivar a postura ética a todo momento e criar situações em
que ela pode ser discutida. Exemplo: ele pode planejar a discussão em
torno de um troco errado, quando estiver ensinando subtração.
O que
muda na avaliação?
A
avaliação revela o que o professor considera importante. Então, ela só
muda na medida que o professor modifica o seu jeito de ensinar. É comum
ele não conseguir avaliar como vão os seus alunos sem lhes dar uma
prova. Isso demonstra que esse professor não tem prática de observação.
A idéia é de que a avaliação seja um feedback a respeito do que ele
ensinou e, se houver algo errado, tenha chance de reverter o quadro, em
vez de esperar até o fim de um bimestre para perceber que perdeu um
tempo precioso. Nesse sentido, a avaliação também serve, e muito, ao
trabalho do professor.
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