É
possível um aluno escrever bem e não saber ler?
Se ele não está alfabetizado, como posso
ajudá-lo?
Ler
é interpretar as letras, os números ou outros símbolos
escritos segundo o significado que cada língua
convencionou dar a eles. Portanto, parece-me
impossível alguém escrever bem e não
saber ler o que escreveu. O que deve ter
acontecido com seu aluno é que ele aprendeu a
copiar, a desenhar, as letras das
palavras, mas sem associá-las a seu significado.

Os
preparativos para a alfabetização começam, na
verdade, no período pré-escolar e nem sempre são
planejados. Assim, quando os pais
"distraem" o filho pequeno com livros
ilustrados ou revistas, mostram no jornal a
inicial do nome dele ou chamam sua atenção para
placas de trânsito, por exemplo, estão
familiarizando a criança com o mundo da leitura.

Na
escola, a alfabetização se inicia com a memorização
dos chamados grupos semânticos, cada um reunindo
palavras relacionadas a um tema significativo para
o aluno. Assim, por exemplo, os nomes dos
brinquedos formam um grupo semântico; os da casa
e de seus objetos, outro; os dos animais, um
terceiro; os de pessoas, um quarto. Os grupos semânticos
familiarizam a criança com muitas palavras
diferentes, levando-a ao mesmo tempo a perceber
que várias delas têm sons iguais, representados
pelos mesmos "pedacinhos" (as sílabas).
Ao observar pessoas lendo, ela logo descobre
como juntar uma ou mais sílabas de uma palavra
com uma ou mais sílabas de outra para formar uma
terceira. A partir do grupo "gaiola",
"chaleira" e "porta", por
exemplo, ela pode chegar a "gata",
"lata", "gaita",
"chata" e por aí afora.

Algumas
dicas para os alfabetizadores:
Além
de trabalhar com os grupos semânticos, tenha na
classe um alfabeto fixo na parede e outro, móvel.
Espalhe um grande número de palavras escritas, de
todos os tipos, pelas paredes da classe. Não se
atenha às fáceis, nem só aos substantivos e
adjetivos — verbos, artigos e outras categorias
gramaticais precisam estar presentes. Ou seja:
valem palavras como "bicicleta",
"caramanchão", "milharal",
"correr", "que" e quaisquer
outras que façam parte do universo da classe.
Afinal, as crianças aprenderam a falar em casa,
com pessoas que usaram com ela seu vocabulário
normal.

Todos
os dias, inicie as aulas sentando-se em círculo
com as crianças e pedindo a elas para contar as
novidades acontecidas desde o dia anterior.
Durante a conversa, vá escrevendo em papel
(qualquer um: sulfite, manilha, de embrulho, verso
de folhas já escritas), com letras grandes, as
palavras utilizadas pelos alunos. Varie o tipo de
letra de uma palavra para a outra. Escreva algumas
com letras de imprensa maiúsculas, outras com
letras minúsculas e outras com letra cursiva ou
manuscrita. Assim a turma vai se acostumando com a
diversidade de tipos de letras que encontrará no
mundo lá fora.
Faça
a primeira leitura das palavras ou textos escritos
em voz alta, acompanhando cada linha com o dedo, o
lápis ou outro objeto.
Convide
então os alunos a ler junto com você,
coletivamente. Tenha em mente que essa leitura
deles é apenas simbólica, mas muito importante:
é como se "tomassem" do professor —
que para eles é o detentor do saber — o
"dom" de ler. No dia seguinte, repita a
seqüência de leituras, individual (sua) e
coletiva (sua e das crianças) com as novas
palavras que vão surgindo na conversa.
Peça
às crianças para copiar no caderno as palavras
escritas por você, o próprio nome e o dos
coleguinhas. Se quiserem fazer desenhos e
identificá-los, ótimo. Isso vai mostrar a elas
que as letras, os números e outros símbolos não
são rabiscos sem sentido, mas possuem um
significado, que pode ser apreendido por quem lê.
A
cada final de aula, prenda os papéis com as
palavras e os textos escritos num barbante e
pendure o barbante nas paredes da classe, como se
fosse um varal de roupas, mais ou menos na altura
dos olhos dos alunos. Se
a criança quer escrever uma palavra mas ainda não
souber como, vai procurar nas palavras do varal da
classe "pedacinhos" daquela que quer
grafar. Por exemplo, para conseguir "casarão",
pode pegar o "ca" de
"cabrito", o "sa" de
"casa" e o "ão" de
"caramanchão" e escrever alguma coisa
como "casaão", o que é um resultado
muito bom para quem está começando. Não diga,
pois, que ela está escrevendo "errado".
Ela está, na verdade, tentando achar as
representações gráficas mais adequadas para os
sons que ouve. Dá
mais resultado fazê-la trabalhar as palavras ou
textos onde houve mais dificuldades de grafia
lendo, copiando letra por letra ou completando as
letras faltantes. Em certos casos, você pode
ajudar o aluno com dificuldades colocando a
palavra que ele quer escrever em algum lugar da
sala, onde possa descobri-la naturalmente.
Com
a turma dominando um número cada vez maior de
palavras escritas, trabalhe vocábulos com letras
que costumam dar confusão na escrita, por
exemplo, as que têm som de "z" mas são
escritas com "s"; as que têm som de
"s" mas são grafadas com "ç"
e daí por diante. Uma boa atividade são os
"jogos da memória". Um deles: corte 40
pequenos quadrados de cartolina. Em 20 deles
escreva palavras como "casa", "maçã",
"massa", destacando as
"letras-problema" em vermelho. Nos
outros 20 cole (ou desenhe) figuras que
representam as palavras escritas nos primeiros.
E
nunca, nunca se esqueça: quanto mais textos as
crianças lerem, melhor será a sua escrita.
(Resposta
de Marília Marques Machado, cientista social pela
UFMG)
Revista
Nova Escola - Edição Setembro de 1999
