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CHOVE? NENHUMA CHUVA CAI... Vera de Azevedo Rodrigues

Ai, que saudades daqueles dias brancos e frios!

Eu era tão pequena e frágil;

a chuva lá fora resguardava-me junto ao cálido leito,

 onde, enroscando-me por entre lençóis e cobertas,

à meia-luz, devorava torradas e gibis,

ao abrigo das intempéries de um mundo hostil.

 

De quando em quando, voltava o olhar para a janela,

persiana aberta e vidros cerrados,

de onde degustava um muro branco,

quase brilhante, claro como a chuva e a neve.

Sempre chovia e nevava no muro de meus sonhos.

 

Era mais um daqueles dias preciosos,

nos quais, fingindo-me enferma, 

mantinha-me à distância da escola,

palco de sofrimentos indizíveis,

dores que o meu coração de criança não podia suportar.

Havia dois mundos opostos e inconciliáveis,

cujas fronteiras definiam-se a partir da soleira 

da porta de minha casa.

Era preciso não misturá-los:

não macular o meu mágico universo familiar 

com os horrores que conhecera lá fora. 

 

 Agarro-me fortemente aos lençóis,

sinto o calor e aconchego de minha cama de doente,

único canto onde me sinto protegida,

livre para sobrevoar os arco-íris de um universo fantástico,

livre para tudo querer e para tudo poder ser,

levitando entre estrelas e planetas,

contemplando, do infinito azul, 

a pequenez da Terra e seus habitantes.

Talvez até chova em algum recanto. 

Mas aqui, nenhuma chuva cai.

 

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