Programa
Educacional Libertário
Tendo uma visão peculiar da necessária e
impostergável revolução social, os anarquistas lutam pelo fim do
Estado, pelo fim da velha ordem ao mesmo tempo em que se constrói -
sem forma alguma de ditadura intermediária - a ordem social
libertária. Ou seja, a "revolução da esperança" por eles proposta é
um ato de destruição de tal ordem que traz já dentro de si a nova
sociedade.
Nada mais distante do
pensamento libertário, antiautoritário por definição, que a
instituição de alguma forma de governo revolucionário provisório.
Seria ilusório supor - e a história o tem comprovado - que um
governo revolucionário, fosse de que natureza fosse, se satisfizesse
com a interinidade. Ao contrário o poder, onde existe, busca sua
perpetuação e é precisamente contra isso que se insurgem os
defensores da sociedade ácrata. "O caminho que conduz à liberdade,
só pode ser a própria liberdade", reza antigo ditado anarquista. Não
somos "inversivos", caso em que desejaríamos a tomada do poder
político e econômico para um partido ou classe social, somos antes
subversivos, ou seja, queremos atingir o fim do Estado, do poder e
da dominação política, econômica ou de qualquer natureza preservando
apenas e unicamente aquela Autoridade natural, emancipatória,
estimuladora do crescimento e realização
humanas.
A temática da educação, de
resto presente em praticamente todas as correntes do pensamento
social, é privilegiadíssima nos clássicos do pensamento anarquista
como Kropotkin, Bakunin, Proudhon, Buber, Landauer, Robin e
Malatesta, principalmente porque sem uma real modificação na
mentalidade das pessoas - e a educação cumpre papel crucial, basilar
neste ponto - a revolução social poderia não alcançar o êxito
desejado.
Cumpre fazer aqui uma breve
digressão acerca do êxito da Revolução, a partir do pensamento de
Mariátegui, bem como de Ernst Bloch, ambos marxistas heterodoxos, de
linhagem humanista. O revolucionário peruano, citando Sorel, fala do
vigor inesgotável dos lutadores por justiça social no mundo
informando que nunca se abatem: "A cada experiência frustrada,
recomeçam. Não encontraram a solução: a encontrarão! Jamais lhes
assalta a idéia de que a solução não exista. Eis aí sua força!" Já o
Filósofo da Esperança compara o niilista ao revolucionário nos
seguintes termos: "Enquanto o niilista conclui do Não ao Nunca, o
revolucionário ascende do Não ao Ainda-não. ("NOCH-NICHT-SEIN"). Não
vamos, contudo, ficar de braços cruzados à espera da inevitável
vitória da revolução social, pois somos nós mesmos os seus
protagonistas. Mas a certeza da vitória final renova, a cada recuo
histórico - de resto dialeticamente inevitável - a nossa força e,
por que não dizê-lo, a nossa FÉ!
A
elaboração de um Programa Educacional Libertário foi precedida por
uma crítica feroz à educação burguesa e teve lugar na Europa em
meados do século passado.
Sendo a grande meta comum a todos
os combatentes em prol da Justiça Social no mundo o fim da luta de
classes, como dizia Errico Malatesta: "...Anarquia, este sonho de
justiça e de amor entre os
homens..."
Outra crítica importante
ao sistema educacional burguês era dirigida à educação religiosa,
cada vez mais conflitante com as descobertas das ciências naturais
da época, além de desviar a atenção dos educandos dos problemas
deste mundo **. Também a falta de unidade no ensino era ferozmente
combatida pelos anarquistas; a divisão formal entre "educação
científica" e "educação profissional", entre "ensino" e
"aprendizagem", segundo Proudhon só servia para manter a divisão da
sociedade de classes, perpetuando a condição existente entre
subalternos e trabalhadores. Hoje, por compreendermos a verdadeira
religiosidade como elemento importantíssimo não apenas da
emancipação humana, como também de sua elevação intelectual e moral,
pensamos que a educação religiosa deve ocorrer, sim, mas de maneira
obrigatoriamente não-dogmática! Nosso combate, passe a redundância,
deve dar-se, isso sim, contra todas as formas de dogmatismo, seja
ele religioso, científico, filosófico ou de qualquer natureza (Esta
temática será devidamente aprofundada no capítulo III - Da
metodologia).
Bakunin, insurgindo-se
contra a existência de dois tipos de educação, uma mais aprimorada,
para a burguesia, outra bastante simplificada, limitada e limitadora
dirigida aos trabalhadores, já neste momento influenciado pelas
teorias educacionais de Paul Robin, proporá a criação de uma
educação integral.
Em 1882 o Comitê Para
o Ensino Anarquista reúne-se e prepara seu Programa Educacional que
centraliza-se, num primeiro momento, na supressão de três práticas,
muito habituais nos estabelecimentos de ensino mas sem dúvida
execráveis; são elas:
1. A disciplina artificial, coativa,
à margem da vida. Esta precisa ser suprimida pois causa
dispersividade e medo, além de fomentar mentiras e delações entre
professores e alunos. Mais tarde os Anarquistas proporão uma
disciplina conciliada com a naturalidade humana, uma disciplina em
nome da esponteinade humana que, com base na Autoridade Natural,
possa promover o humano, conduzir e despertar, EDUCAR no sentido
mais elevado e sublime desta expressão: possibilitar a cada um o
desenvolvimento daquilo que cada um tem de melhor em si mesmo em
termos de espontaneidade e humanidade. Esta proposta tem a vantagem
suplementar de possibilitar ao educador libertário crescer
intelectual e humanamente também, como bem o enfatiza Mário Lodi,
quando fala da "Criatividade Liberada", na coletânea de textos
Educação e Liberdade, inicialmente publicado no volume 1/87 da
revista italiana Volontà, traduzido e publicado no Brasil por Nelson
Canabarro, ed. Imaginário, 1990.
2. Os programas
apriorísticos e genérico-formais, também à margem da vida, onde não
se dá voz ou vez aos interessados, os educandos. Numa etapa
posterior, os anarquistas proporão a implantação de programas
sérios, voltados a auscultar as particularidades, onde não mais
haverá o culto do indivíduo em favor do social. Ai do social que não
possa contar com indivíduos sazonados! Os programas apriorísticos,
genérico-formais, têm de ser suprimidos pois tolhem a liberdade dos
educandos, sua originalidade, sua capacidade de iniciativa e mesmo
inibem a sua responsabilidade fazendo com que pensem que só "de
cima" podem vir verdades acerca das relações dos homens entre si e
destes com a natureza.
3. As classificações, finalmente,
deveriam ter o mesmo destino (a lata de lixo da história), por serem
fonte de comportamentos baseados na rivalidade, na inveja
e no rancor, além de provocar distinções dos educandos entre si com
base exclusivamente na avaliação subjetiva do professor. Também
neste item, em etapa posterior, os Anarquistas passam a pensar em
classificações sim, mas nunca de maneira apriorística, sempre
suscetíveis de modificações, onde o respeito às particularidades
subjetivas seja o centro das considerações. Vale ressaltar ainda uma
vez que o indivíduo pleno, sazonado, é decisivo para a perspectiva
anarquista. Só podemos ter o coletivo salvo se tivermos salvo o
particular. Qualquer forma de classificação que não contemple a
dimensão da promoção intelectual e moral do humano será permanente
anátema para a perspectiva anarquista!
Reformuladas estas práticas nocivas, o ensino, segundo o Programa
Educacional Anarquista, poderá ser verdadeiramente integral,
racional, misto e libertário.
Integral,
porque poderá "favorecer o desenvolvimento harmonioso de todo o
indivíduo e fornecer um conjunto completo, coerente, sintético e
paralelamente progressivo em todos os domínios do conhecimento
intelectual, físico, manual e profissional, sendo as crianças
exercitadas nesse sentido desde os primeiros anos" Flávio Luizetto,
Utopias Anarquistas, Brasiliense, 1992.
Racional, porque liberto do dogmatismo religioso ou mesmo científico
(hoje em dia mais pernicioso e perigoso este último), fundamentado
na Razão e de acordo com os princípios da dignidade e independência
do homem, não mais na obediência cega a qualquer forma de orientação
exterior ao humano ou ao racional.
Misto, ou seja, voltado a favorecer a co-educação sexual, onde a
figura da discriminação nesta esfera não passe de triste recordação
de um tempo sombrio - há que se reconhecer que muito se avançou
nesta área específica do século XIX às margens que estamos do século
XXI.
Libertário ou, "numa palavra,
consagrar em proveito da liberdade o sacrifício da autoridade
repressora, uma vez que o objetivo final da educação é formar seres
humanos livres que respeitem e amem a liberdade alheia!" Flávio
Luizetto, op. cit.
Traçar, a este ponto,
mais que um esboço, além de extrapolar em muito os modestos
conhecimentos e habilidades de quem assina estas notas, encontra
ainda a dificuldade suplementar de serem planos e programas
anarquistas consideravelmente incompletos, o que é perfeitamente
compreensível, traçar mais que um esboço do que se propõe
ultrapassaria também os limites dialéticos recomendáveis; a
construção da Sociedade do Futuro é tarefa eminentemente social,
coletiva, daí dever dar-se com o assentimento e o entendimento de
todos os interessados no processo ensino-aprendizagem (pais,
professores e alunos, fundamentalmente) de modo livre,
evidentemente.
Liberdade é a
palavra-chave em todo o processo ensino-aprendizagem. Assim como é
inimaginável, em relacionamentos amorosos que alguém diga a outrem
por quem se interesse: "me ame!" como numa ordem, é ridiculamente
ilógico ordenar ou coagir as pessoas a estudar o que quer que seja.
Assim como na conquista amorosa, também nesta esfera tudo deve
dar-se em termos de persuasão, de conquista
mesmo!
Também os professores que, em sua
esmagadora maioria, ministram aulas em condições tão aviltantes
(baixos salários, classes abarrotadas, excessiva carga horária etc)
sendo até levados muitas vezes a exercer atividade tão nobre como o
magistério por imperativo categórico de necessidade financeira,
inexistindo a vocação, propriamente dita, para ensinar e aprender,
caminhar junto com os educandos rumo ao saber com amor e alegria
precisam ser trabalhados, persuadidos, conquistados às propostas
libertárias...
Uma grande campanha de
elucidação e persuasão, a nível federal - diria mesmo que
internacional - através dos meios de comunicação é fundamental ao
sucesso de tal empreitada. Trata-se aqui,
nem mais nem menos, que de uma guinada radical à forma como a
educação vem sendo encaminhada há
séculos.
Platão, discípulo de Sócrates,
ministrava suas aulas na famosa Academia, residência do herói
ateniense Academio. Aristóteles, "a inteligência", discípulo mais
eminente de Platão, no Bosque dos Lobos ( Lukeion em grego arcaico),
em aulas peripatéticas, criou o Liceu. Tempos depois, já por ocasião
do domínio macedônico sobre o mundo grego, Epicuro criou o Jardim,
onde se cultuava acima de tudo o amor, a liberdade e a
alegria.
Hoje em dia percebemos haver
muitos "liceus" e "academias" pelo mundo afora, numa claríssima
manifestação do tipo de comprometimento daquelas instituições com o
pensamento socrático, platônico e mesmo aristotélico, em grande
medida autoritário.
O "jardim" até pouco
tempo existia somente para crianças, eram famosos e agradabilíssimos
os "Jardins da Infância". Hoje, nem isso, a tendência mundial é a de
se preparar a criança desde a mais tenra idade para o que encontrará
pela frente nos níveis mais avançados, ou seja, vão desaparecendo do
cenário os "jardins-de-infância", substituídos pela chamada
"pré-escola"...
Sem problemas, avanços e
recuos são comuns na história da humanidade e, se vivemos um tempo
de recuo na direção autoritária do platonismo ou do aristotelismo
(sem demérito algum à grande riqueza intelectual e erudição daqueles
gênios da humanidade, menos ainda a seus ricos aportes à filosofia)
por um lado e um recuo do epicurismo ético, tempo chegará em que se
assistirá e vivenciará uma inversão - também provisória, ou
estaríamos exorbitando a dimensão da dialética - de todo este
quadro.
III - Da
Metodologia
Em primeiro lugar, é necessário
enfatizar a diferença entre o saber científico e aquele do
senso-comum. Aquilo que Erich Fromm chama em O Medo à Liberdade de
"validação consensual", ou seja a opinião da maioria acerca de um
dado fato, quase nunca é bom começo à pesquisa científica, embora
seja útil ao dia-a-dia das pessoas. Todos "percebem" a solidez da
Terra e como o Sol segue o seu caminho nos céus no período que vai
da aurora ao crepúsculo, mas a pesquisa científica séria e
aprofundada demonstra que a Terra tem vários movimentos, como
rotação, translação etc, e é precisamente o movimento de rotação que
nos dá a percepção de "nascer e pôr-do-sol", além disso, em relação
à Terra, o Sol está imóvel no céu, mas também esta estrela de sexta
grandeza tem um movimento em torno da Via Láctea que, por sua vez,
desloca-se em grande velocidade também, como estilhaços da grande
explosão que especula-se ter dado início a tudo, o "Big
Bang".
Tais descobertas científicas, num
tempo em que o dogmatismo religioso detinha todo o poder, por pouco
não custou cabeças privilegiadíssimas como a de Galileu Galilei, que
precisou retratar-se diante do Tribunal do Santo Ofício para
salvar-se mas si muove... Ocorre que a verdade da constatação
científica empírica se impõe finalmente e hoje não se encontra mais
quem conteste seriamente o movimento dos astros no
universo.
O segundo passo é perceber as
diferenças cruciais entre a metodologia das ciências humanas e
aquela das ciências naturais. O filósofo romeno-francês Lucien
Goldmann em Ciências Humanas e Filosofia, Difel, 1986, às pág. 31 e
seguintes coloca:
"Na realidade, sabemos
hoje que a diferença entre as condições de trabalho dos "fisiólogos,
físicos e químicos" e a dos sociólogos e dos historiadores não é de
grau, mas de natureza; no ponto de partida da investigação física ou
química há um acordo real e implícito entre todas as classes que
constituem a sociedade atual a respeito do valor, da natureza e do
fim da pesquisa. O conhecimento mais adequado e mais eficaz da
realidade física e química é um ideal que hoje (a situação não era a
mesma nos séculos XVI e XVII) não choca nem os interesses nem os
valores de qualquer classe social (...) Nas ciências humanas, ao
contrário, a situação é diferente. Pois se o conhecimento adequado
não funda logicamente a validade dos juízos de valor, é certo porém
que favorece ou desfavorece psicologicamente essa validade na
consciência dos homens. A assimilação do revolucionário ao
criminoso, por exemplo, é de natureza a afastar o leitor do primeiro
(...) em tudo o que respeita aos principais problemas que se colocam
para as ciências humanas, os interesses e os valores sociais
divergem totalmente. Em lugar da unanimidade implícita ou explícita
nos juízos de valor sobre a pesquisa e o conhecimento que está na
base das ciências naturais, encontramos nas ciências humanas
diferenças radicais de atitude, que se situam no início, antes do
trabalho de pesquisa, permanecendo muitas vezes implícitas e
inconscientes (...) Nas ciências humanas não basta, pois, como o
queria Durkheim, aplicar o método cartesiano, por em dúvida verdades
adquiridas e abrir-se inteiramente aos fatos, pois o pesquisador
aborda muitas vezes fatos com categorias e pré-noções implícitas mas
não conscientes que lhe fecham de antemão o caminho da compreensão
objetiva."
Como se percebe, em ciências
humanas encontra-se uma produção de conhecimento comprometida com a
manutenção do statu quo ante ou, para utilizar expressão própria,
com a manutenção da "ordem" como a conhecemos e uma outra produção
de conhecimento voltada à transformação radical deste mesmo statu
quo ante a partir da constatação empírica de que esta "ordem" está
transformando nosso mundo num verdadeiro inferno. Neste pequeno
trabalho, parto da constatação da existência da propriedade privada
dos meios materiais e espirituais de produção e, num juízo de valor
voltado à emancipação do homem de toda e qualquer forma de opressão
ou tolhimento da liberdade, proponho um reordenamento social, para
longe da opressão e do tolhimento da liberdade em todas as esferas.
Neste caso específico, na esfera das relações profissionais, no
processo ensino/aprendizagem. Aqui passo a mais uma breve citação,
agora de Errico Malatesta em Escritos Revolucionários, Novos Tempos
Editora, 1989 que no escrito "Um pouco de teoria", pág. 39 em diante
informa:
"Nós desejamos a liberdade e o
bem-estar de todos os homens, de todos sem exceção. Queremos que
cada ser humano possa se desenvolver e viver do modo mais feliz
possível. E acreditamos que esta liberdade e este bem-estar não
poderão ser dados por um homem ou por um partido, mas todos deverão
descobrir neles mesmos suas condições, e conquistá-las. Consideramos
que somente a mais completa aplicação do princípio da solidariedade
pode destruir a luta, a opressão e a exploração, e a solidariedade
só pode nascer do livre acordo, da harmonização espontânea e
desejada de todos os interessados (...) Evidentemente, não queremos
tocar sequer num fio de cabelo de ninguém, enxugando as lágrimas de
todos, sem fazer verter nenhuma. Mas é necessário combater no mundo
tal qual é, sob pena de permanecermos sonhadores estéreis (...) É
por amor aos homens que somos revolucionários; não é nossa culpa se
a história nos obriga a esta dolorosa
necessidade."
Quanto à questão religiosa,
ainda uma vez, percebe-se na citação do revolucionário italiano que
muitas das metas dos anarquistas são comuns às metas mais elevadas
de correntes religiosas sérias como o cristianismo, por exemplo.
Combatendo num tempo em que o dogmatismo religioso aliava-se ao
Capital em prol da manutenção do statu quo ante, da "ordem",
socialistas autoritários (os que pregam a ditadura do partido
único), assim como socialistas libertários, que propõem uma
caminhada de lutas sem cessar rumo à anarquia, à sociedade
ácrata,
sem classes, não contemplando ditadura de qualquer natureza entre os
dois instantes, estes socialistas todos, ao se contrapor ao
dogmatismo religioso "pró-ordem", acabam por criticar e propor mesmo
a erradicação do fenômeno religioso in totum. No mundo atual,
contudo, ao percebermos haver cientistas da área de humanas a fazer
profissão de fé socialista, por vezes, caindo em outras formas de
dogmatismo ainda mais nefandas que aquelas encontradas pelos
primeiros socialistas nos religiosos de outros tempos, percebemos
que o combate não é mais ao fenômeno religioso, mas ao dogmatismo,
seja ele de que natureza
for. Nossa
perspectiva é aquela do humanismo radical, queremos a emancipação do
homem de todos os entraves à sua liberdade, por conseguinte, à sua
felicidade e saúde plenas. Hoje em dia encontramos entre os mais
sérios e abnegados religiosos, homens de elevada fé e amor ao
humano, grandes aliados à causa libertária. Roger Garaudy, por
exemplo, em Apelo aos Vivos, Nova Fronteira, 1979, à pág. 248
coloca:
"Nossa longa busca através da
sabedoria e do profetismo de três mundos revelou-nos que podemos
viver de outro modo.
Viver de outro modo
as relações com a natureza, quer dizer, as relações
econômicas.
Viver de outro modo as
relações do homem com a sociedade, quer dizer, as relações
políticas.
Viver de outro modo as
relações do homem consigo mesmo e com o divino, isto é, as relações
da sabedoria e da fé.
Como conceber,
realizar, nestes três níveis, o projeto necessário à sobrevivência
da vida da espécie? O projeto é necessário para passar de um
crescimento cego, sem finalidade humana e suicida para o mundo, a um
desenvolvimento do homem e do desabrochar daquilo que nele é divino.
Ele exige radical inversão em nossas relações com a natureza, com a
sociedade, conosco mesmos e com o divino (...) Compreender a vida é,
em primeiro lugar, percebê-la em sua unidade. Restaurar a unidade
perdida no Ocidente entre o homem e a natureza, o senso da comunhão
com o Todo. Tomar consciência de que pertencemos ao real e de que
toda a realidade se resume e se mira em nós."
Como fica bem claro, não se faz aqui apologia da metodologia
científica exclusivamente, embora a sua aplicação seja
consideravelmente necessária ao mundo contemporâneo. É fundamental
encontrar os aportes do que há de mais elevado e avançado nas
ciências humanas (mais em seu aspecto humano que em seu aspecto
científico), na filosofia portanto e no fenômeno religioso ou
profético em seu sentido mais amplo.
Há
finalmente uma questão terminológica, a incomodar alguns espíritos
mais sensíveis, o que é compreensível dado o poder da máquina
propagandística que trabalha para a "ordem" impedindo a clara visão
dos fatos em ciências humanas, como se percebe na citação supra de
Lucien Goldmann. Que a Revolução Francesa tanto quanto a Revolução
Americana foram fatores de avanço para o Ocidente, não se questiona,
mas a expressão "revolução" ou "revolucionário" é tida, lida e vista
com preconceitos infundados, ou melhor, fundados apenas na
mencionada máquina de propaganda, o que Adorno e Horkheimer chamam
de Indústria Cultural.
Outra expressão que precisa ser lida,
vista e tratada com mais respeito, a despeito da indústria cultural,
é aquela que fala de "subversão". Chamamos de aos defensores da
"ordem" tal qual está de "versivos". Aqueles que almejam alcançar o
poder para impor coercitivamente sua mundividência a outros sem
alterar as estruturas existentes em qualquer ponto, são os
"inversivos". "Subversivos" somos os que propomos a cessação das
hostilidades entre os homens, o fim da luta de classes, os que
lutamos por um mundo de Paz, Harmonia, Plenitude e Fartura, um mundo
no qual todos os seres humanos, "todos sem exceção", possam viver
livres do medo e do ódio, possam ter enfim planificados seus anseios
por
FELICIDADE.
Lamentavelmente, todos os subversivos da história têm sido por ela
muito maltratados em vida, como já nos informa Wilhelm Reich em O
Assassinato de Cristo: numa sociedade fundada em falsidades e
hipocrisias, que elegeu o blefe e a fraude como "bezerros de ouro",
todo o subversivo sofre os ataques constantes da Peste Emocional,
que leva seres humanos encouraçados a s
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uprimir (não raro fisicamente
mesmo) aquele que luta por Amor, Liberdade, Fraternidade... Mario
Lodi, em sua entrevista no trabalho já mencionado, tem de se haver
com estas dificuldades. Colegas professores, pais encouraçados,
portadores de verdadeiras blindagens por vezes, alunos aprisionados
nas malhas da "ordem", vêem o quão humanisticamente BOM (bom
cidadão, bom profissional, bom familiar, bom cristão, bom ser
humano, enfim) se pode ser. Não conseguindo fazer ou mesmo ou
verem-se retratados ou espelhados naquele exemplo, farão de tudo, de
acordo com a atuação neles da Peste Emocional, para perseguir,
buscar afastar ou, no limite, levar à supressão física mesmo se
possível lhes for, o subversivo inovador. Claro, depois de morto e
bem morto o revolucionário inovador, a sociedade afluente hipócrita
lhe erguerá estátuas ou mesmo templos, que
tempos...
É doloroso perceber que todos
os que tiveram como objeto privilegiado de análise a alma humana,
colocando em prática suas descobertas e inovações, em suas múltiplas
manifestações, foram negligenciados - freqüentemente sepultados - em
favor dos que privilegiaram a coisa, o Capital, o produto inerte, a
materialidade mercadológica, o tecnicismo cientificista, como eixo
de seu pensamento. O mercado pode contar como uma de suas
realizações mais representativas o haver podido fundar a legenda,
tão disseminada, do técnico superior ao humanista.
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