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Proposta
educacional libertária
Urge
revolucionar toda a sociedade, subvertê-la recolocando o ser humano
no cerne de todas as considerações políticas, sociais e econômicas,
isto já está claro. Vejamos agora o que pode fazer o
educador libertário em sua profissão para aperfeiçoar o homem e o
mundo a caminho da sociedade ácrata que, estou seguro, será a tônica
do terceiro milênio. Tomemos
inicialmente a experiência de A. S. Neil em Summerhill. Ao contrário
do que muitos pensam, não é inédita, nem se trata de "um lugar em
que se brinca ao invés de estudar" menos ainda fracassou. Os jovens
são recebidos naquele estabelecimento de ensino aos cinco ou seis
anos de idade, ali podendo permanecer até os dezesseis ou dezessete
e têm total liberdade para escolher os rumos a dar à sua própria
educação. Neil deixa claro lá haver sempre professores gabaritados a
preparar os jovens a todo e qualquer exame a que porventura deseje
submeter-se na sociedade afluente, sendo seu desempenho naqueles
casos, muitas vezes superior ao de jovens egressos de outros
estabelecimentos de ensino autoritários. A impressão que se tem, ao
travar contato com relatos acerca daquela "república de crianças" é
a de que, por não haver ali qualquer forma de coerção, os jovens
dela saem com enorme erudição nos campos de saber de seu livre
interesse e, o que é mais importante, delas saem livres do
medo! O processo pedagógico, com amor e
como o amor precisa contemplar amplamente as esferas erótica*,
lúdica e onírica de todos os envolvidos. Ora, todo o tipo de coerção
é antitético tanto ao erótico, quanto ao lúdico, quanto ao onírico,
antitético ao amor portanto, assim como a todo o verdadeiro e sério
trabalho pedagógico. Educação sem coerção não é pouca coisa,
como se percebe. Inclusive pela sua raridade no mundo atual.
Talvez nisso, na abolição da égide do medo na Instituição, para os
jovens tanto quanto para seus educadores, resida o sucesso deles em
sua vida profissional e, o que é mais importante, em sua vida
afetiva - pelo menos até que a sociedade afluente acabe por
fagocitá-los também. Mas Summerhill, com toda a sua beleza,
está bem longe de nós no espaço e, o que é mais grave, na
ideologia. * - Deve-se ter por base ainda que todo o agir
humano no mundo está impregnado de erotismo, em suas acepções
científica e psicanalítica. Sublimação da erotização básica na
erudição por exemplo é muito comum. Há mesmo, dentre os libertários
e surrealistas quem fale em "eros-dição" em adição à estéril
erudição...
Passo portanto, a falar
de minha experiência como professor de história, filosofia e
sociologia a jovens e adultos nas redes secundária e de terceiro
grau, tanto públicas quanto privadas nos estados de São Paulo, Rio
de Janeiro e Minas Gerais. Descrevo o quadro caótico-enlouquecedor
que encontro e passo a fazer propostas emergenciais, embora utópicas
(lembrando aqui e sempre que utopia é algo possível e atingível;
trata-se, numa definição clara, de "local ou situação que não
existe", AINDA. Não de uma proibição ontológica
definitiva). O professor vê-se, em
geral, diante do seguinte quadro: _ Salários da ordem de
US$ 250 por estabelecimento em que trabalha. _ Precisa
trabalhar, ministrar aulas mesmo, em pelo menos quatro
estabelecimentos de ensino onde dá - uma dádiva quase que literal
mesmo - aulas em cada um a cerca de dez turmas diferentes para que
possa auferir rendimentos compatíveis pelo menos com sua sobrevida
material. _ Cada turma tem, em média, cinqüenta alunos,
sendo freqüente encontrar estabelecimentos de formação (uma
deformação, isso sim!) secundária ou mesmo de terceiro grau com até
cento e vinte alunos por classe! _ Os estabelecimentos de
ensino, em geral, têm sua filosofia própria, sendo enormemente
refratários a qualquer tipo de inovação
não-ortodoxa. Percebe-se que o professor
precisa lidar com mais de mil seres humanos por ano letivo, em sua
maioria carentes material e/ou afetivamente nestes tempos de crise
interminável, muitas vezes trazidos a estudar de maneira coercitiva,
sem persuasão ou convencimento minimamente diplomático. Via-de-regra
vêem-se compelidos a expressar a insatisfação para com a repressão a
que se vêem submetidos pelos pais e/ou pelo estabelecimento de
ensino em classe, seja fazendo estardalhaço, seja "fugindo" da
situação em desenhos, rabiscos, poemas e atividades paralelas
congêneres. O educador se vê, portanto,
face a uma situação que, para ser classificada como meramente
caótica teria de melhorar muito: onde conseguir memória suficiente
para gravar os nomes de mais de mil seres humanos por ano letivo que
estão, em sua maioria, passando pela fase em que mais precisam de
carinho e atenção para que possam adequadamente auto-afirmar-se na
vida? De que forma conseguir tempo para reciclar-se,
auto-aprimorar-se e aperfeiçoar seus métodos e conteúdos se precisa
trabalhar em classe freqüentemente mais de 50 (cinqüenta) horas
semanais, além do tempo que fica, em casa, corrigindo e preparando
aulas trabalhos e testes? De onde tirar o bom estado de ânimo que
permita o transe empático, VITAL a qualquer processo pedagógico, com
quarenta turmas diferentes, quase sempre abarrotadas de jovens,
alguns dos quais expressando ruidosamente sua insatisfação, seu
justificado inconformismo ou mesmo necessidade de auto-afirmação?
Como conjugar a arte de transmitir e receber conhecimentos no
processo ensino/aprendizagem entabulando interlocuções fecundas com
os jovens à repressão, quase sempre necessária para conter aqueles
que se manifestam de maneira inadequada? De que maneira manter
permanente concentração e elevado nível intelectual e moral em
classe com os diversos compromissos sociais dele exigidos por uma
sociedade assim tão desequilibrada?
Minha prática pedagógica, que data aí de uns doze anos quando
reescrevo estas linhas, tem permitido algumas soluções emergenciais,
embora esteja bem claro que o problema é muito mais amplo do que
comporta este breve estudo. Há que
considerar a permanente luta por melhorias salariais, através da
união sindical, embora limitada e dificílima - o medo perpassa
corações e mentes de colegas em situação profissional precária, a
compaixão para com a situação dos educandos, que em nada ou quase
nada são culpados pela situação a que os professores foram jogados -
é uma das mais severas armas patronais e por aí vai - traz, contudo
pequeníssimos resultados positivos no sentido de sensibilizar as
autoridades governamentais para com a
questão. Como trabalho com matérias
bastante flexíveis em termos programáticos e as consigo tornar
interessantes por si mesmas, optei por não ser nada rígido quanto a
cobrança de presenças nem mesmo impor qualquer tipo de coerção nos
estudos das matérias que ministro. Quem se esmera mais tem nota
máxima e aqueles menos dedicados - guardados os limites impostos
pelas instituições em si - recebem pelo menos o grau mínimo à
aprovação, com as gradações justas entre aqueles e estes
últimos. Entre meus pares, às vezes
encontro incompreensão, uma vez ser quase de praxe o controle
disciplinar através da avaliação, ocorrendo mesmo de a "disciplina
em classe" freqüentemente constar dos itens de avaliação dos alunos,
o que deploro. Em certos casos, mais severos, admoestações como
"cuidado, sua atitude, não sendo você quem é, pode ser interpretada
como simples descaso para com a educação..." Fato é que o índice de
absenteísmo de minhas aulas jamais foi superior a 2%, sendo
freqüentes os casos de jovens que trazem colegas de outras turmas ou
mesmo familiares para ouvir minhas prédicas. Paralelamente a isso,
os trabalhos que solicito em caráter opcional, os alunos podem ser
avaliados apenas "por participação", são apresentados em profusão e,
não raro, têm elevadíssimo nível intelectual, alguns até chegando
mesmo a ser publicados! Sentindo-se
livres os jovens produzem mais e melhor,
participando sempre com grande entusiasmo e motivação. O
que vou relatar não deveria ser motivo de surpresa, mas muitas vezes
me pego verdadeiramente estupidificado diante da dedicação e esmero
de alguns. Uma jovem aí com seus quinze anos de idade apresentou um
bom trabalho, todavia com pequenas imprecisões que me
impossibilitavam de conceder-lhe nota máxima. Atribuí o segundo
melhor conceito possível e recomendei maior atenção para com as
pequenas imprecisões que encontrei. A jovem decidiu-se a reelaborar
o trabalho inteiro - e era longo - enriquecendo-o com novos aportes
e me senti obrigado a atribuir-lhe a então justa e merecida nota
máxima. Aos que não compreendem bem esta
postura, argumento: não estaria eu, com esta atitude, sendo um
repressor moral num nível ainda mais profundo que o trivial e
grosseiro? Os jovens ficam tristes, envergonhados mesmo quando não
são aquinhoados com uma nota ou conceito elevado, o que faz com que
estudem mesmo e elaborem trabalhos cada vez melhores. Difícil
expressar em palavras o quão compensador se mostra esse retorno dos
alunos, podendo aqui repetir as palavras do já citado Mário Lodi
naquele mesmo trabalho: "Das crianças um professor antiautoritário
recebe muito!" Pura verdade! Vamos agora
arrolar algumas propostas sérias e emergenciais para a educação no
Brasil - aproveitem-se as idéias; fica aos detentores de poder
decisório o "dever de casa" de encontrar os meios mais adequados de
colocá-las em prática: 1. Limitação no número de alunos por
turma, para que o educador possa melhor acompanhar o desenvolvimento
de cada um de seus pupilos e para que também não se veja lançado
numa situação em que, por não haver espaço temporal à livre
manifestação e criatividade de cada educando, acabe reduzido à
condição de palestrante ou, no limite, repressor em seu sentido mais
grosseiro mesmo. Um educador pode acompanhar bem, de perto, o
desenvolvimento intelectual, moral, humano, enfim, de cada um de
seus alunos em turmas de, no máximo, vinte
alunos. Fica claro que qualquer
intelectual competente é capaz de proferir palestras a verdadeiras
multidões. A situação, evidentemente, é bem outra no cotidiano dos
jovens estudantes. Aula é para formar, palestra, para
informar. 2. Limitação na quantidade de turmas em que o
educador deve exercer suas atividades. Lidar com um máximo de cinco
turmas com vinte alunos em cada uma por ano permitirá ao educador
acompanhar de perto, com toda a seriedade, gravidade e atenção o
desenvolvimento de cada um dos cem jovens cujos nomes e
características pode memorizar tranqüilamente, com rapidez e
facilidade até. Este ponto fala do respeito humano que possa
permitir aos alunos terem suas identidades particulares
reconhecidas, ponto também fundamental numa proposta pedagógica
séria. 3. Autonomia pedagógica, melhor aceitação de
metodologias alternativas. Não é concebível que se trate seres
humanos como máquinas. Que as instituições educacionais
tenham suas próprias filosofias é compreensível. Acolher com
urbanidade, reconhecimento e respeito idéias diferentes, contudo
operacionais, diria mesmo que ainda mais operacionais que as
anteriores, é o mínimo que a prática democrática pede às vésperas do
terceiro milênio. Seguir com práticas medievais às margens do 21º
século é um disparate! 4. Ponderável aumento salarial. É
isso mesmo, chegamos a uma situação tão absurda que somente com
propostas aparentemente "loucas" se pode reverter o quadro. Estou
propondo uma diminuição na jornada de trabalho de 50 aulas semanais
para no máximo 25 e uma contrapartida salarial condigna ao respeito
que merece o profissional formador de seres humanos para a
vida. Com salários melhores e mais tempo
livre, o profissional do ensino poderá dedicar-se com maior empenho
a seu auto-aperfeiçoamento, exercendo um trabalho cada vez
melhor. O que está aqui proposto, com
todas as letras, em síntese, é que se coloque a ênfase no ser
humano, na atividade pedagógica em si, não mais na lucratividade da
"empresa" escola ou mesmo nas regras draconianas do mercado.
Discutir a situação do mercado, a "corrida de lobos" da sociedade
industrial é, quiçá, tema para outro trabalho. Aqui digo que mercado
é uma coisa e atividade educacional é outra totalmente diferente.
Dentro das atuais regras colocadas pelo mercado - daí a expressão
"emergenciais" que apodo às medidas propostas - o professor precisa
resgatar o seu valor mesmo. Caso se prefira um linguajar diferente,
enquanto o mercado ditar suas regras, a "mercadoria" professor
precisa ser melhor valorizada! Expondo
estas idéias em seminários a colegas professores, obtive muita
solidariedade e a crítica solitária: "trata-se de um sonho, de um
delírio", mas ocorre o contrário! A realidade é que se transformou
num pesadelo macabro e irracional, só crível porque existente de
forma material, só por esse motivo falar no racional soa como sonho
ou delírio. De todo o modo, enquanto
nosso modelo educacional estiver, como está, distanciado da Razão -
embora obedeça a algum tipo de lógica que me escapa - estaremos
assistindo e vivenciando o inferno dantesco da deterioração
assombrosa das condições intelectuais e morais de nossa gente. Urge
reverter este quadro!
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Leia o
excelente artigo de Maurício Tragtenberg sobre Pedagogia
Libertária
ana.tessari@bol.com.br


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